Curiosidades, Listas

“O homem que passeia”: curiosidades sobre o lançamento da Devir

O mangá que não foi impresso no Brasil

A editora Devir iniciou no mercado de mangás no Brasil com um grande acerto: trazer novamente obras de Jiro Taniguchi ao país. Desde 2009 não tínhamos obras novas do autor por aqui e o lançamento de O homem que passeia veio para suprir essa carência. Por mais que se fale muito que o mercado está diversificado, a verdade é que ele ainda está em processo de amadurecimento, engatinhando, e a vinda de obras como essa ajudam o mercado a dar um passo adiante.

Lançado originalmente no Japão em 1990, O homem que passeia é um mangá bem diferente dos títulos publicados no Brasil, sem tramas elaboradas, sem romance, sem vilões. A obra mostra apenas um homem caminhando por sua região e apreciando a vida.

Lançado em setembro no Brasil, o mangá chegou às nossas mãos apenas agora no início de outubro e uma resenha será feita em breve. Antes disso, porém, uma sucessão de pequenas coisas interessantes sobre o mangá me chamaram a atenção e me levaram a fazer esta postagem extra e apresentar a vocês. São pontos curiosos e que, creio eu, vocês gostarão de saber^^:

***


1) A descoberta do título

Como vocês sabem, o blog BBM foi quem descobriu que a editora Devir iria publicar o mangá O homem que passeia no Brasil, por meio dos registros do ISBN. Mas como descobrimos isso? Ficamos fuçando editora por editora tentando achar algum lançamento?

Não, não somos tão loucos. Acontece que a Devir lança mangás em Portugal e ela iria lançar esse mangá no país (Na verdade, relançar, visto que a obra já tinha sido publicada por lá, mas com outro nome). Interessado na obra, perguntamos à editora se ela conhecia alguma loja que pudesse enviar para o Brasil. A editora não respondeu de imediato.

Um tempo depois e sem ter obtido qualquer resposta, resolvemos ir vasculhar o ISBN da Devir Brasil. Foi meio que uma intuição de nossa parte ou mesmo um desejo de que a empresa brasileira publicasse o título por aqui que nos fez olhar. A intuição, na verdade, vinha do fato de esse mangá ser diferente dos demais publicados pela editora em Portugal (até então todos os títulos eram das revistas Jumps, da Shueisha) e o milagre aconteceu^^.


2) A resposta da Devir Portugal

Curiosamente, um tempo depois da descoberta do título, a Devir Portugal nos manda a resposta dizendo que a Devir Brasil lançaria o título em fins de julho e início de agosto. Ou seja, mesmo que não tivéssemos ido ao ISBN provavelmente ficaríamos sabendo do lançamento antes de alguém mais descobrir e divulgar.


3) O homem que passeia NÃO foi impresso no Brasil.

Ao responder a um leitor na rede social Facebook, a editora Devir informou que o mangá O homem que passeia foi impresso na Espanha. Esse é o primeiro caso de mangá não impresso no Brasil que nós ficamos sabendo. Talvez tenham existido outros no passado, mas não temos registro disso.


4) Data de publicação no Mangá

Embora tenha sido lançado em setembro, na edição da Devir está marcado a data de julho de 2017. O fato de ter sido impresso na Espanha, decerto é o motivo da diferença de datas. Esse também é o motivo de a Devir Portugal ter nos dito que o título sairia em fins de julho e ele acabar só lançado em setembro. Imprevistos acontecem^^.


5) Sinopse de divulgação errada

A empresa estampou uma sinopse errada em seu site e a divulgou, também com erro, para lojas online. Atualmente já houve uma correção, mas algumas lojas como a Martins Fontes continuam com o texto equivocado. Vejam o que foi escrito:

“Com desenhos de Taniguchi e roteiro de Masayuki Kusumi (o mesmo roteirista de “Gourmet”), “O homem que passeia” é formado por oito passeios de um mesmo homem por sua cidade japonesa. O quinto passeio, “Os pepinos amargos no meio da noite”, é bem emblemático da maneira taniguchiana de pensar a (ou passear pela) vida. Começa com uma visita à casa de um amigo, que termina às 3 da madrugada. Nosso querido passeador resolve voltar para casa a pé, caminhada que levará uma hora e quinze minutos. Há algum suspense no ar: pepinos amargos e a travessia de ruas desertas. Mas nada de ruim acontece. Apenas reflexões ambulantes sobre a cidade que dorme e o amigo que acaba de se separar da mulher. Tudo menos dramático que o som do mergulho de uma rã ou o movimento sutil do pousar de uma borboleta em haiku mais que perfeito e tranquilo. Essas qualidades de Taniguchi, mais sua sensibilidade diante daquilo que existe de poesia na banalidade do cotidiano (tanto na natureza quanto na cidade), já produziram uma legião de admiradores para sua obra, como o cineasta belga Sam Garbarski, que levou para as telas – em 2010 – um de seus mangás, Bairro Distante”.

O que o trecho tem de errado? O homem que passeia possui autoria apenas de Jiro Taniguchi. Além disso, toda a parte que diz que “O homem que passeia é formado por oito passeios” está completamente errada e sequer há um “Os pepinos amargos no meio da noite” nesse mangá. Todo o trecho faz menção a uma outra obra do autor chamada Sanpo Mono.

Sanpo Mono foi publicado no Japão em 2003 por Masayuki Kusumi e Jiro Taniguchi e possui um tema muito similar a O homem que passeia, mostrando as andanças de um homem pela região em que mora, com ele vendo e apreciando o dia a dia de seus vizinhos. Tal qual a obra predecessora, Sanpo Mono também tem um quê de biográfico por Taniguchi retratar em seus desenhos, os seus próprios passeios em sua cidade. Trata-se de um título inédito em língua portuguesa, não tendo sido publicado nem no Brasil, nem em Portugal.


6) Por que cometeram esse erro?

É aí que vem o mais interessante^^. A edição brasileira possui um texto introdutório de Hermano Vianna, feito para o Jornal O Globo em 2011 e também publicado no blog do autor. No texto, o autor fala, entre outras coisas, das obras de Taniguchi publicadas em língua portuguesa e nela ele cita O homem que caminha (Aruku Hito), lançado pela Panini e pela Devir junto a um jornal em Portugal, muitos anos atrás. Aruku hito é o mangá publicado no Brasil sob o título de O homem que passeia. 

Entretanto, Vianna cita a existência uma “obra irmã” de Aruku Hito, a já mencionado Sanpo Mono. Tal obra foi publicada na França / Bélgica pela editora Casterman com o título de Le promeneur que, segundo o autor, ficaria em português algo como “O passeador”. Não gostando desse nome, Vianna cria o título “O homem que passeia”.

Falando sobre Sanpo Mono Hermano Vianna diz o seguinte:

“Com desenhos de Taniguchi e roteiro de Masayuki Kusumi (o mesmo roteirista de “Gourmet”), “O homem que passeia” é formado por oito passeios de um mesmo homem por sua cidade japonesa. O quinto passeio, “Os pepinos amargos no meio da noite”, é bem emblemático da maneira taniguchiana de pensar a (ou passear pela) vida[…].”

Ou seja, o trecho usado na divulgação vem daí. Está demontrado o erro em sua essência. Só para ficar mais claro para o caso de alguém não ter entendido: para Hermano Vianna Sanpo Mono poderia se chamar em língua portuguesa “O homem que passeia”. Entretanto, a editora Devir deu esse nome para Aruku hito. Foi aí que ocorreu o erro. Alguém não percebeu que o texto de Vianna falava de uma obra diferente e fez a divulgação utilizando parte do texto dele. Foi um descuido dos grandes…


7) Entrevista de Jean-Philippe Toussaint

Há algo mais interessante nessa questão toda. No mesmo texto introdutório, Hermano Vianna cita que a edição francesa de Sanpo Mono possuía uma entrevista de Jiro Taniguchi feita por Jean-Philippe Toussaint. Essa entrevista está presente na edição brasileira.

Em outras palavras o “O homem que passeia” francês (Sanpo Mono), citado por Vianna, tinha a entrevista; e o “O homem que passeia” brasileiro da Devir (Aruku Hito) – que é uma obra diferente – também possui a mesma entrevista O_o. Mais confuso que isso impossível.

Claro que isso não desculpa o erro na divulgação, mas que ficou confuso, ficou. A dúvida maior é de quem foi a ideia de renomear o mangá para “O homem que passeia” e utilizar o texto de Hermano Vianna.


8) Texto datado

O texto introdutório de Hermano Vianna é datado de 2011 e algumas informações encontram-se defasadas. As obras em português de Jiro Taniguchi é uma dessas informações. Seis anos depois já existem mais obras do autor em nossa língua. Em Portugal, a editora Levoir publicou Terra dos Sonhos e O diário de meu pai, conforme já falamos anteriormente.

Não chega a ser um erro, visto que há uma data informando quando o texto foi publicado, mas para quem gosta de informação mais precisas, qualquer coisinha chama atenção.


9) Aquela cutucada básica na Panini

O texto de Hermano Vianna pode ser datado, mas algumas coisas ainda são muito atuais. Justamente ao falar sobre as obras de Taniguchi, ele cita o seguinte (o destaque em negrito é nosso):

“No Brasil, Taniguchi tem publicados poucos livros. Gourmet, lançado em 2009 pela Conrad, é uma obra-prima – o caminho zen em busca da comida perfeita, no restaurante mais improvável. A editora Panini, em sua coleção Planet Manga, publicou O livro do vento […] e Seton, sobre o naturalista inglês Ernest Thompson Seton, do qual ainda espero o segundo volume”.

O segundo volume nunca apareceu. Obrigado, Panini ¬¬

***

Erros são erros e devem ser apontados, mas estamos muito felizes de a Devir começar a publicar mangás. Desejo todo o sucesso do mundo da editora e espero que O homem que passeia venda muito bem para que outras obras do autor possam a aparecer no futuro.

O trabalho da editora no mangá está praticamente perfeito, dando um show de acabamento físico, mas disso falaremos mais na nossa resenha que irá ao ar logo, logo.

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BBM

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7 comentários em ““O homem que passeia”: curiosidades sobre o lançamento da Devir”

      1. Lembre-se que, no caso, a Devir é nova nesse ramo de mangás no Brasil e ela não está acostumada às exigências dos leitores e para ela dizer “papel especial” era o suficiente para satisfazer os leitores.

        Entretanto, a empresa já disse o nome do papel. Ele se chama Papel Murken Print Cream 1.5 80g. É um offwhite muito bom, melhor até que o Lux Cream.

        Curtido por 1 pessoa

          1. Não mano, se mahou tsukai for impresso na espanha tomara q seja igual ao da norma editorial.
            E se for impresso na Espanha até papel jornal tá bom, olha o assassination classroom da panini Espanha, além de ficar mais barato. Não é um papel jornal transparente e que suja o dedo, e a impressão fica boa também. É tipo um lux cream sem o amarelado.

            Curtido por 1 pessoa

  1. Realmente havia muitas curiosidades sobre “O Homem que Passeia”…=)
    Especialmente esta do título não ser impresso aqui. Agora, como vi na resenha do BBM, já divulgaram o preço, e 55,00 por um edição de capa comum? Só vindo de fora mesmo para explicar o alto preço desta obra.
    Acho que a Devir deveria ter estudado um pouco melhor o mercado para lançar um produto um pouco mais barato… Não creio num encalhe quase total, mas com certeza estará bem longe inclusive dos vendidos medianamente…
    Com certeza muita gente vai esperar alguma promoção de ótima para excelente para comprar esta obra, e eu devo me incluir neste grupo (feliz ou infelizmente)…=|

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