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Resenha: A cidade da luz

Mais uma obra depressiva…

Ler qualquer obra de Inio Asano é pedir para se sentir angustiado. Não é que haja coisas grotescas em seus mangás, e sim porque o autor retrata a humanidade da forma mais infeliz que ele pode pensar. Ainda que existam lampejos de felicidade, os títulos de Asano buscam nos fazer refletir sobre vida e, exatamente por isso, sobre as mazelas que os seres humanos sofrem, sejam eles resultados ou não de nossas próprias ações. É isso o que vemos, cada um à sua maneira, em Solanin, Nijigahara Holograph e, também, em A cidade da luz, obra da qual falaremos agora.

O título foi serializado no Japão entre 2004 e 2005 na revista Sunday GX, da Shogakukan, e foi compilado em apenas 1 volume. Fora do Japão, a obra foi licenciada na França, na Itália (2 vezes) e, recentemente, na Espanha. Por aqui o título saiu em julho pela editora Panini, juntamente como Dr. Slump e Last Notes. Embora Asano não seja tão conhecido do público em geral, o mangá do autor estava entre os mais aguardados dos frequentadores das redes sociais, tendo gerado até uma mini-revolta devido ao papel escolhido pela editora para usar no mangá.

Vejamos em detalhes a obra…


Sinopse oficial


Uma área residencial é criada nos arredores de Tóquio e chamada de “Cidade da Luz”. Lá, grandes edifícios coexistem com casas antigas e presenciam o cotidiano de seus habitantes. Nesta compilação de histórias ora sombrias, ora felizes, ora trágicas, o aclamado autor Inio Asano entrelaça os destinos de pessoas que nem sempre são tocadas pelos raios de sol que banham a cidade em que vivem.


História e desenvolvimento


O mundo um dia vai acabar. Embora essa frase seja um tanto quanto controversa, visto que “mundo” acabar depende muito da perspectiva e do que é que estamos falando, ela guarda uma verdade universal inconteste: um dia, tudo terá um fim. Os momentos alegres cessarão, os momentos tristes também. A vida acabará. Todos nós, mais ou cedo ou mais tarde, pereceremos. Esse é um dos temas que circunda A cidade da luz.

O mangá compila algumas histórias de Inio Asano que se passam em um mesmo ambiente, uma área residencial próxima à Tóquio chamada justamente de A cidade da luz. Embora sejam histórias que podem se dizer independentes, elas se interligam por meio de personagens ou acontecimentos. Por exemplo, um mangaká presenciará um suicido em uma das histórias; em outra se descobrirá que existe algo a mais além do simples suicídio; em outra o protagonista será um personagem secundário da história anterior, etc.

O que há em comum em todas as histórias é o drama humano em sua essência, com pouco espaço para a alegria e felicidade. Não à toa o suicídio e a morte aparecem constantemente, como se servissem para mostrar o inevitável fim de todos. Os personagens sempre estão refletindo sobre suas vidas, as vidas das pessoas próximas e as das demais, de algum modo sempre marcadas pela tristeza. Eles têm ideias, sonhos e esperanças, mas muitas angústias. Em outras palavras, os personagens de Inio Asano representam seres humanos reais, verossímeis e que você pode identificar facilmente dentre as pessoas à sua volta.

É claro que há toques de realismo fantástico (ou loucura^^), mas ainda assim todos os personagens parecem credíveis. Essa “credibilidade” é aumentada porque todos os que aparecem no mangá são únicos, com cada um tendo um motivo diferente de desesperança, de falta de fé na vida e na humanidade, ou, por outro lado, de alegria e motivação para viver. O resultado é uma obra harmoniosa e redondinha…

-As histórias

Em “Para onde vai a estrelinha que brilha”, acompanhamos a história de um mangaká passeando pela cidade em busca de referência para um de seus trabalhos. Ao lado da namorada, ele acaba refletindo sobre sua vida, seus amigos e sua falta de perspectiva. É uma história que já te coloca para baixo, ao abordar logo de cara o suicídio de uma pessoa anônima. Porém, o todo não é tão depressivo, pois o protagonista, ainda que a ideia de que em breve a morte pode lhe visitar venha à sua mente e de que seu esforço como mangaká não é suficiente, a mensagem que ele passa é de que a vida sempre segue e que, ao lado de pessoas queridas, os pequenos momentos transformam-se em algo único e satisfatório.

Essa mesma reflexão se faz presente em “Ponto de ônibus”, a segunda história do mangá, mas de uma forma diferente e mais densa.  De longe, essa é a história mais pesada do mangá, pois apresenta um séquito de personagens em situação de desolação. O protagonista, seu pai, sua melhor amiga, todos eles, cada um a seu modo, vivem uma situação de desesperança total, devido a injustiças e perdas de pessoas queridas. Uma temática que perpassa essa história é novamente o suicídio, desde pessoas anônimas, até o protagonista. Mas apesar da grande angústia que os personagens sofrem, a ideia de que existe uma simples pessoa em que você possa confiar transforma a vida em algo mais agradável e os pensamentos depressivos e suicidas deixam de existir…

Já hPa, a terceira história, é a mais leve de todas e, em certo sentido, é a que mais destoa do tom pesado do mangá. Na história duas adolescentes conversam sobre suas vidas, a situação dos pais, etc. Ainda que você também veja o drama aparecendo (o namorado que deixou de ser carinhoso e só ficava pedindo sexo; o pai que foi despedido; as cobranças, etc) a narrativa é leve e termina de uma forma bem positiva. O legal de “hPa” é o tom de, em certo sentido, realismo fantástico, com uma personagem que diz ver aliens e conversar com os mortos. Outro ponto é que nessa história também é mencionado levemente a ideia de que um dia o mundo acabará, relacionando-se, de certa forma, com a quinta história que falaremos mais adiante.

Em “Home”, a quarta história, acompanhamos dois homens que vivem juntos e cuidam de uma criança. Embora o convívio entre os três e o lar deles seja parte importante do enredo, o título da história remete ao verdadeiro lar de um dos protagonistas que foi transformado pelo poder do dinheiro. E esse é o tema dominante da história, a importância do dinheiro na vida das pessoas. “Home” mostra o que acontece com quem ganha muito dinheiro, mostra as necessidades de quem precisa dele, além de falar da ganância, mesmo que seja uma ganância para realizar um sonho.

Esse tema da importância do dinheiro não é apenas debatido em “Home”. Nas três histórias anteriores, ele também está presente e faz parte do drama dos personagens, que podem levar a situações mais desesperadas como o suicídio em “Ponto de ônibus”. Entretanto, nelas há apenas leves menções e não são o tema central. A única história que não tem qualquer relação com esse tema é “Rebirthday song”, a última delas.

“Rebirthday song” traz de volta o tom de realismo fantástico, com um personagem – um garoto de 5 anos – que diz ter morrido há exatos 5 anos e reencarnou para ficar perto de sua ex-namorada, uma professora que agora irá se casar. A ideia de fim do mundo como metáfora para a morte também volta a aparecer, dessa vez de uma forma mais consistente, já que temos o elemento fantástico e mítico da reencarnação.

Se em “hPa” já tivemos menções a espíritos, em  “Rebirthday song” nós temos toda uma divagação sobre um ciclo a mais, que vai além da morte física. O interessante é que a reflexão provocada pelo garotinho acaba sendo bem parecida com aquela que terminaria na morte: a vida é uma sucessão de coisas, sejam alegres, sejam tristes, em um eterno ciclo. E a única coisa que pode acabar com o ciclo é a morte definitiva, no caso de “Rebirthday song”, o fim do mundo.

Há várias camadas de leituras que podem ser abordadas em A cidade da luz que englobem todas as histórias unificadamente e separadamente, mas uma análise desse porte seria mais adequada para um trabalho acadêmico do que para um texto em um blog. Ainda assim comentamos bastante e conseguimos passar um pouco do que é esse mangá.

A cidade da luz é um mangá muito bom, com um desenvolvimento para lá de interessante e que consegue cativar o leitor e o prender naquele mundo. Entretanto, não é uma obra fácil de ser digerida. Não digo que seja um “quebra-cabeça” como é Nijigahara Holograph, mas sim que ele nos cansa enquanto humanos, enquanto vemos os sentimentos e os dramas dos personagens. A cidade da luz é um mangá feito para nos deixar para baixo…


A edição nacional


A edição nacional veio no formato 13,7 x 20 cm, padrão da editora Panini, e miolo em papel jornal, ao preço de R$ 13,90. Sendo bem sincero o papel jornal utilizado me pareceu bastante razoável, só acho que ainda está muito aquém do usado em One Week Friends ou mesmo o usado nos mangás da Nova Sampa. Uma pena… Mas fora isso, a edição está boa, permitindo folhear e ler o mangá sem qualquer percalço, não existindo nenhum problema de encadernação.

Se fisicamente a edição da Panini não apresenta problemas, as escolhas editoriais da Panini tem pontos que podem ser controversos e muito questionáveis. Comecemos pelo tratamento da editora dado às “placas” e outras inscrições nipônicas que aparecem pelo cenário.

Em A cidade da luz, a Panini fez o que costuma fazer em seus outros mangás, manteve quase todos os ideogramas e colocou legendas. Vejam abaixo:

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As placas que você acabou de ver é o método da Panini em sua essência, os textos em japonês e a legenda em um local próxima, acima ou ao lado dela. Trata-se de um método interessante, pois mantém os olhos do leitor no centro da imagem evitando que ele precise quebrar a sequência para ler uma nota (o que acontece muito, por exemplo, em alguns mangás da JBC). A única coisa que eu questiono é do porquê de a editora preferir manter textos em japonês mesmo quando não há necessidade como na placa abaixo. Se fosse JBC, NewPOP ou a maioria das editoras estrangeiras, a placa estaria apenas na nossa língua.

Eu não me importo muito com essa prática, porém os problemas desse método também são bem claros. Em alguns momentos, eles poluem demais a imagem, fazendo o leitor perder parte da arte que deveria apreciar, além de ficar esteticamente feio. Em A cidade da luz ainda há um agravante que é o motivo de eu comentar sobre essa questão. Vejamos as placas a seguir:

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Se você for atento perceberá que essas placas já haviam aparecido. Como a história acontece em um certo ambiente (A cidade da luz) é comum que os locais reapareçam.  Nas primeiras imagens mostradas havia legenda, agora não há mais. Não existe nenhuma razão que justifique ter legenda antes e não ter agora fora o fato de as que tiveram legenda apareceram primeiro. Ainda que seja um critério, trata-se de um bem duvidoso, pois soa como falta de padrão. Para quê colocar em um e não em outro? Aliás, mesmo esse suposto critério é falho. Algumas dessas imagens aparecem mais de uma vez e, em algumas deles, há legenda e outras não, aumentando ainda mais a sensação de que não existe um padrão.

É perfeitamente entendível que a editora não coloque legenda em algumas inscrições sem importância, mas porquê colocar em uma e não em outra sendo que é a mesma placa? Nesse mangá não há nada que diga que em uma passagem o local é importante e em outro não. É nisso que reside o problema das legendas. Ao ver esse contraste em que inscrições iguais recebem tratamentos diferentes, a gente não tem como achar bastante questionável as escolhas da Panini. Confesso que não percebi se isso se repete em outras obras da editora, mas passarei a ficar atento daqui em diante…

***

A adaptação de texto também deixa bastante a desejar, com a editora mais uma vez utilizando honoríficos sem qualquer necessidade prática, visto que não acrescentam em nada na história ou na experiência de leitura. Pelo contrário, isso causa uma falta de verossimilhança nos mais exigentes, pois estamos lendo uma obra em língua portuguesa e, de repente, aparece um termo alheio e sem motivo, tentando se passar por algo natural, quando ele não é.

Por causa disso, a leitura acaba ficando travada em alguns momentos e, por breves segundos, você perde a noção de que está lendo uma obra ficcional, você perde a imersão. Infelizmente esse é um tipo de problema recorrente na Panini e não há qualquer perspectiva de que a editora melhorará algum dia.


Veredicto


É impossível não recomendar A cidade da luz. A obra é, de longe, uma das melhores publicadas no Brasil em 2017, não existindo nada que eu considere demérito nas histórias. Asano domina com maestria a técnica da narrativa. Infelizmente ele não é um mangá para todo mundo. É difícil que ele agrade quem prefere títulos de lutinha ou romance de colegiais.

O mangá é um slice of life, mas sem comédia e que busca refletir sobre a vida, morte e tudo mais. É preciso ter um certo espírito, uma certa disposição para conseguir apreciar a história. É preciso iniciar a leitura já sabendo que a narrativa é depressiva. Ainda assim acho que todos deveriam ler esse mangá…


Ficha Técnica


TítuloA cidade da Luz

Autor: Inio Asano

Editora: Panini

Acabamento: Papel jornal

Número de volumes: 1

Preço: R$ 13,90

Onde comprar: Amazon

***

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6 thoughts on “Resenha: A cidade da luz”

  1. por causa dos cenarios, nao acho q o jornal seja razoavel pra mangas do asano.
    quanto as legendas nas placas, incrivel como que quando a sampa faz isso em seus mangas o povo fica louco, mas na panini ninguem reclama.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Tenho tudo quanto é mangá do Asano e esse é mais outro que vou comprar. Só espero um dia que esse mangá saia em um formato melhorzinho em inglês ou espanhol pra eu adquirir também. Com outros mangás eu não me importo, mas com Asano, que é um dos meus autores favoritos, dá um aperto comprar nesse formato simples D:

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    1. Ele saiu em espanhol. Falei isso no início da postagem ^^.

      E se você clicar em A cidade da luz (em cor verde) você será direcionado a uma página do blog em que poderá ver a capa e o nome em espanhol.

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  3. A premissa inicial para mim em relação a este título seria de comprar sem pensar tanto, mas sinceramente, ver este mangá em papel jornal me deixa tão depressivo quanto a resenha diz que a narrativa do mangá é… Deveras lamentável!
    Lendo a sua resenha, @Kyon, minha vontade já mínima de comprar o mangá fica ainda mais minada…=(
    Agradeço a resenha e vamos em frente, independentemente de eu comprar o mangá ou não. =)

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