Desmistificando

Desmistificando: Por que tanto reajuste? Os mangás estão encarecendo?

São tantos reajustes seguidos…. mas isso significa que são vários aumentos e está ficando mais caro no passar dos anos?

Se tem algo que causa incômodo nos leitores é reajuste de preço, com direito a gente completamente revoltada de que a editora está aumentando o preço sem qualquer motivo só para tirar-lhe todo dinheiro e enriquecer a si mesma, até pessoas revoltadas que gostariam de ver uma diminuição de preço de capa ao invés de aumento, só para variar um pouquinho.

Veja, o porquê de só acontecerem aumentos ou por que reajustes são necessários a gente já chegou a comentar aqui, mas relembrando: de forma geral a mudança de preço é feita para reajustar o valor do produto de acordo com a inflação e flutuação cambial de outras moedas relacionadas (no caso o dólar e o iene), mudança de preços nas matérias-primas e serviços, ajuste de tiragem e seus reflexos no preço final.

I

Agora uma coisa que o público parece não compreender ou perceber, é que embora sejam aumentos no preço de capa, um reajuste não é simplesmente uma sucessão de adições, pois enquanto o preço de capa aumenta, o valor do real diminui. Isso é super confuso, eu sei, e no nosso cotidiano vai acontecendo tão devagar que é difícil perceber. Há até pessoas que dirão “na minha época isso custava menos” como quem lembra uma época mágica, enquanto no presente aquele item tivesse ficado imensamente mais caro. Só que não é o item que ficou mais caro necessariamente, a moeda que vale menos. Mesmo somando os reajustes, a perda do valor da moeda pode significar que esse “menos” dessa época mágica era muito mais caro que o preço atual.

Quando você diz um valor monetário como 10 reais, na verdade o “reais” ali não é uma “medida fixa”, mas algo relativo que flutua em relação ao dólar (e outras taxas cambiais), ouro, reservas nacionais e quantidade de dinheiro em fluxo (oferta e demanda). Não vou fingir que entendo 100% de como tudo isso é calculado ou tenho a intenção de ensinar, o que importa aqui é você perceber que ele varia e são “valores” diferentes de acordo com o mês e ano em questão e ao o que estamos comparando. Dessa forma 10 reais de 2000 atualizados são equivalentes a 30 reais em 2017. Você percebe isso com a mudança de moedas e notas também, no Brasil, por exemplo, parou-se de trabalhar com a nota de um real e a moeda de um centavo, e começou-se a usar notas de dois e vinte. A mesma lógica vale para as reformas monetárias, como a troca para Cruzeiros, Cruzados e Reais.

E é por isso que reajustes não representam necessariamente um aumento, mas atualização do valor. Pegue seu salário, por exemplo, idealmente todos os anos ele deve ser reajustado de acordo com a inflação e outras medidas. Se você tem um bom emprego, isso deve acontecer periodicamente e não é simplesmente um aumento do seu salário, mas atualização, inclusive constantemente essa atualização é feita com índices abaixo do da inflação (de acordo com contratos e acordos trabalhistas), significando que você teve relativamente uma “diminuição” e não aumento  em relação ao salário inicial, ou seja, comparado a outros anos você ganha proporcionalmente menos. Aumento verdadeiro seria se realmente você recebesse um acréscimo no salário base por algum motivo que não reajuste salarial, como ser promovido, ou por alguma magia seja reajustado acima do valor da inflação.

II

Com essa ideia de reajuste em mente, será que de fato os mangás estão ficando cada vez mais caros? O que vemos acontecer são vários reajustes ou aumentos de fato? Para sanar essa dúvida, escolhemos vários volumes da JBC e Panini com características semelhantes (um tankoubon simples) ao longo dos anos e atualizamos os valores através do IPCA. Veja por si mesmo o resultado interessante desse exercício:

Data Volume Editora Preço original Atualizado
dez/03 X #1 JBC R$ 9,80 R$ 21,30
jul/06 Yu-Gi-Oh! #1 JBC R$ 10,90 R$ 20,40
jul/07 Gantz #1 Panini R$ 9,90 R$ 17,90
ago/12 Gantz #30 Panini R$ 11,90 R$ 16,40
set/12 Beelzebub #1 Panini R$ 10,90 R$ 15,00
out/12 Nura #1 JBC R$ 11,90 R$ 16,30
fev/14 BTOOOM! #1 JBC R$ 12,90 R$ 16,30
jun/14 Lúcifer e o Martelo #1 JBC R$ 13,90 R$ 17,10
set/14 Beelzebub #13 Panini R$ 11,90 R$ 14,50
set/15 Ultraman #1 JBC R$ 14,90 R$ 16,60
set/15 Beelzebub #19 Panini R$ 12,90 R$ 14,40
nov/15 To LOVE-Ru #1 JBC R$ 13,50 R$ 15,00
dez/15 Fate/Stay Night #1 Panini R$ 12,90 R$ 14,50
abr/16 BTOOOM! #19 JBC R$ 13,90 R$ 14,60
jul/16 To LOVE-Ru #7 JBC R$ 13,90 R$ 14,40
out/16 Saintia Shô #1 JBC R$ 15,90 R$ 16,20
jan/17 Fate/Stay Night #14 Panini R$ 13,90 R$ 14,10
jan/17 Beelzebub #27 Panini R$ 13,90 R$ 14,10
jun/17 To LOVE-Ru #12 JBC R$ 13,90 R$ 13,90
Em verde obras da JBC, em lilás da Panini. Valores arredondados para efeito figurativo.

Analisando a coluna de preços atualizados, nos deparamos com uma realidade muito engraçada, comparativamente mangás já foram muito mais caros! Os primeiros tankoubons do Brasil nesse molde de papel jornal típico custavam o equivalente a 20 reais na época (o que justifica porque se preferia trabalhar com meio-tanko com a metade do preço). Daí até meados de 2012 houve pouquíssimo reajuste, já que o país estava bem economicamente, ainda assim houve inflação e você nota que o mesmo “R$ 10,90” em 6 anos passou de quase 20 reais para 15 reais. Outro possível motivo para a ausência de reajuste pode ter sido a expansão do número de leitores e popularização do produto.

Foi a partir de 2012 que a coisa começou a pegar com crises internacionais e desvalorização do dólar frente ao real. Testemunhamos com isso uma sequência de aumentos constante, Beelzebub, por exemplo, começou a R$ 10,90 e terminou a R$ 13,90. Contudo, a atualização do valor mostra sem qualquer dúvida que não foram aumentos em si, mas reajustes contínuos, inclusive tendo ficado relativamente mais barato de equivalente a R$ 15,00 para o equivalente a R$ 14,10. Confira abaixo como o volume foi periodicamente valendo menos até ser reajustado:

Data Volume Preço original Atualizado
set/12 Beelzebub #1 R$ 10,90 R$ 15,00
mai/13 Beelzebub #5 R$ 10,90 R$ 14,30
mar/14 Beelzebub #10 R$ 10,90 R$ 13,70
set/14 Beelzebub #13 R$ 11,90 R$ 14,50
jan/15 Beelzebub #15 R$ 11,90 R$ 14,30
set/15 Beelzebub #19 R$ 12,90 R$ 14,40
set/16 Beelzebub #25 R$ 12,90 R$ 13,20
jan/17 Beelzebub #27 R$ 13,90 R$ 14,10

Se prestarmos atenção naquela primeira planilha, a Panini se estabilizou no preço equivalente a 14-15 reais e a JBC, a 14-16 reais. E mesmo com todos esses aumentos, o valor atualizado está quase constante. Isso é prova de que não, editoras não estão aumentando os preços despropositadamente, estão acompanhando a inflação do país. Não foram os mangás que ficaram mais caros, na verdade o inverso impera, mangás ficaram mais baratos comparativamente no passar dos anos; foi você, cliente, quem perdeu o poder de compra!

Como assim “poder de compra”? Se o seu salário ou mesada não é devidamente reajustado ou é reajustado sempre abaixo dos índices de inflação, você vai perdendo o seu poder de compra. A pessoa que ganhava 3 mil em 2012 e não vê reajuste a 5 anos está na verdade ganhando menos, de o equivalente a 4,2 mil reais para 3 mil reais. Ou seja, enquanto os mangás continuam a valer proporcionalmente a mesma coisa, você tem ganhado menos. Logo não são os mangás que estão ficando mais caros, você está ficando mais pobre.

III

É muito importante ressaltar que essa “conversão” de valores é ilustrativa e geral, diferentes segmentos podem sofrer mais ou menos reajustes devido a vários outros fatores. Por exemplo, o fato de várias fábricas de papel terem fechado entre 2014 e 2016 causou uma pressão maior no mercado editorial brasileiro, especialmente no quesito papel jornal, que a JBC carinhosamente chamou de “crise do papel”, já que afetou diretamente o papel que eles usavam até então.

Logo esses valores atualizados apenas são um comparativo de equivalências baseado na inflação e poder de compra, nada representam do lucro da editora ou custos. É perfeitamente possível que mesmo com a perda do valor a editora ganhe a mesma coisa ou mais em lucro, por no caso específico a inflação não ter afetado tanto. Ou que o aumento das vendas e tiragens diminua o custo unitário de cada volume para a editora e compense a inflação.

Contudo, independente do lucro e custos da editora, o preço final e a relação com os valores e preços da época podem ser calculados, que é esse valor atualizado. Por isso mesmo é que os mangás custarem equivalente a quase 20 reais no passado não significa que a editora ganhasse mais lucro, especialmente quando esse “passado” era um mercado novo, com um público ainda não sedimentado, os custos na época e as tiragens da editoras podiam ser muito diferentes. Como dissemos acima, o preço final nada diz sobre os custos ou lucros da editora.

IV

No fim das contas não faz sentido nenhum ficar bravo com as editoras por causa dos reajustes, ela continua pedindo proporcionalmente o mesmo valor para todos os produtos dela ao longo dos anos. Se você achava que antigamente era um preço justo, então continua justo. Se vai culpar alguém, culpe o governo por não atualizar o salário mínimo, o trabalho por não reajustar seu salário, ou seja qual o motivo que lhe tirou seu poder de compra e diminuiu o dinheiro que você tem para seus hobbies e supérfluos.

Reajuste não é uma questão de maldade ou safadeza por parte da editora, ela precisa repassar os reajustes salariais de seus funcionários, os reajustes de preço de impressão, os reajustes de preço de papel, o aumento do dólar e do iene e seja mais o que tiver de aumento de gasto. Ela precisa ganhar lucro para poder investir no mercado, para crescer e trazer os mangás que você tanto pede. Se a editora passar a não ganhar lucro ou for incapaz de pagar seus custos, ela entre em falência, simples assim. (Leia mais aqui.)

E mesmo quando há, por exemplo, baixa nos preços de papéis ou do dólar isso não significa que o real comece a valer mais ou que a editora ganhe mais lucro, a inflação continua aí. Não houve nenhum ano desde que se começou a publicar mangás no Brasil em que não se teve inflação (veja o gráfico abaixo). A editora pode até segurar os preços e perder relativamente menos nesse período de dólar favorável, mas teria que ser uma mudança de valor muito grande para compensar todas as outras perdas. E esse dólar mítico não aconteceu ainda. Logo é irreal esperar que a editora diminua os preços. O que você diria se no dólar favorável seu chefe diminuísse o seu salário? Os custos não mudam do dia para a noite, é todo um efeito dominó. É a mesma realidade que afeta tanto o dinheiro que você ganha tanto o que você gasta!

Ou seja, há muita coisa para se questionar e até xingar nossas queridas editoras, mas esses reajustes periódicos não são uma delas, pelo menos não na nossa situação econômica nacional. Não é uma questão de defender ou ser timinho editora, é bom senso. Os preços subirão ainda mais, não tem por onde correr, uma realidade em que todos os mangás custem acima de 15 reais está logo ali na esquina, já vimos os vários aumentos que estão ocorrendo neste mês. As coisas devem se estabilizar quando a economia se recuperar, mas até lá, a palavra-chave é ser esperto com seu dinheiro, economizar, exigir reajustes salariais, priorizar e saber procurar as melhores opções.

Aos mais curiosos, sugiro que procurem e leiam sobre o mercado editorial brasileiro e de papel, para ver se o setor está abaixo ou acima da inflação, se houve aumentos, além de problemas e crises próprias, antes de reclamar. Você verá que a coisa não está muito boa das pernas não, e isso se reflete nesses constantes reajustes.

***

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14 thoughts on “Desmistificando: Por que tanto reajuste? Os mangás estão encarecendo?”

  1. Continuo falando, o maior problema é que as tiragem são baixas, pois as vendas também são baixas, o que encarece o preço por peça. O mercado de quadrinho no mundo, e no Brasil mais ainda, vem diminuindo. Essas iniciativas da JBC de fazer edições de luxo, mais caras, e também com tiragens menores, só mostra que a tendência do mercado tá sendo a retração, e não a expensão. Uma pena, um país com tanto problema na educação não cultivar o hábito saudável que é ler gibi.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Um habito saudável seria ler, não apenas quadrinhos, mas livros em geral.
      Apesar que eu acho engraçado é que fãs quadrinhos geralmente são taxados como incultos e infantis por leitores de romances como Dan Brown. Mas sinceramente, não vejo diferença entre ler O Código Da Vinci e 20th Century Boys ou um romance genérico do algumacoisa Sparks e Aoharaido.

      Curtido por 1 pessoa

    2. Mas de certo modo tiragens altas também geram seus problemas, vai demorar um bom tempo para diminuir o estoque e até lá, as editoram teriam que custear um deposito que não sairia barato, tendo um sistema para o material não pegar mofo ou amarelar e tal, nesse caso quanto mais rápido vender melhor, optando por uma tiragem equilibrada, o único problema é que se esgotar, dependendo de há quanto tempo esse mangá foi lançado, o preço de capa acaba ficando defasado demais para uma reimpressão, o preço do papel e o custos da gráfica já não são mais os mesmos, se só for um volume de uma coleção, dá até para analisar (se reimprimir esse, a coleção talvez venda mais fácil), mas quando muitos volumes de uma coleção esgotado eles NÃO vão reimprimir mesmo, é mais fácil relançar em um novo formato!

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      1. Não necessariamente, amigo,vai depender da vendas. Uma alta tiragem que é quase exata ao número de vendas não deixa estoque. Uma tiragem pequena com apenas 10% de venda deixa muito estoque. A tiragem alta ou baixa em número depende das vendas, assim se sobrará estoque, esgotará, etc. Ou seja, independe de alto ou baixo, mas no balanço.

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  2. “Logo não são os mangás que estão ficando mais caros, você está ficando mais pobre.”
    Verdade, e se continuarem lançando 30 lançamentos por mês (que o pessoal ta achando pouco), acho que vou ficar ainda mais!!!
    Me lembro quando eu comprei a coleção Adolf do Tezuka. Eu olhei o preço de lançamento e me espantei com o absurdo. Eu até pesquisei um site que aplicasse a inflação e deu algo em torno de R$40,00. A Conrad só sobreviveu tantos anos pelo sucesso de CdZ e DBZ.

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    1. A minha lembrança mais clara disso foi comprando Gon, lembro que ainda estudava e meu pai que comprava meus quadrinhos. Vi Gon em interessei, tive que ir até o pai pedir permissão, e foi duro, pois era muito caro, 20 reais na época.

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  3. Cara parabéns pela matéria , fasso curso de serviços jurídicos e aprendemos em direito tributário que e exatamente isso que acontece o poder de compra do brasileiro esta diminuindo drasticamente com o passar do tempo.

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