Review

Resenha: O plot twist que deu errado em “Hal”

As quatro mentiras da sinopse…

Você já teve a sensação de ler um mangá pela primeira vez e não conseguir gostar e nem odiar ao mesmo tempo? Um mangá em que você não consegue falar super bem e recomendar e nem falar super mal e dizer para as pessoas passarem longe? Pior ainda, quando você relê, a sensação continua a mesma… Esse é o caso de Hal.

Hal nasceu originalmente como um filme que foi ao ar em junho de 2013 no Japão. A obra foi adaptada em mangá pelas mãos de Umi Ayase entre março de junho do mesmo ano e foi compilado em 1 volume. Embora a serialização do mangá tenha começado antes, a obra original é o filme. Ao que parece trata-se de uma prática muito normal no Japão, os capítulos de mangás começam a sair juntos ou um pouco antes de seus filmes, como uma forma de propaganda.

Com uma sinopse misturando romance com uma pitada de ficção científica, Hal tinha tudo para ser uma obra excelente, com reviravoltas fantásticas e um clímax capaz de superar diversos mangás famosos, mas o que vimos acabou sendo algo sem sal e com um desenvolvimento para lá de dúbio…


Sinopse Oficial


Em um futuro não muito distante, pessoas convivem em harmonia com robôs humanoides. A jovem Kurumi passou a se isolar após perder o namorado, Hal, em um acidente de avião e seu avô recorre ao uso de um robô para ajudá-la. E eis que o robô Q-01 toma a forma de Hal e começa a interagir com a garota para que ela volte ao normal… Esta é a história de dois amantes que se preocupavam muito um com o outro…


História e desenvolvimento


-Ficção científica?

A premissa de Hal indicava uma história um tanto quanto clichê que já vimos em diversas mídias com obras como O homem bicentenário e Chobits, porém uma história que une romance com ficção científica sempre chama a atenção dos fãs e a obra parecia ser promissora. Como seria esse mundo criado? Como se faria a interação entre robôs e humanos? Haveria como distinguir os dois? Perguntas pipocavam. Só que Hal falha em tudo.

O mangá nos apresenta um conceito interessante, robôs podem adquirir a forma humana, mas não nos é explicado como e, na verdade, não é algo que faça falta para a compreensão da história e do mundo criado. Porém, para que servem esses robôs? O robô Q-01 adquire a forma humana para conseguir ajudar uma pessoa, mas e o restante dos robôs, o que eles fazem? Como vivem? Não temos nada disso explicado no mangá. É importante para a história? Absolutamente.

Se a obra se passa em uma sociedade futurista, o mínimo que se espera é que o embrião dessa sociedade seja revelado ao público. A obra, porém, apenas nos diz que robôs não são usados para trabalhos pesados e que eles podem ser roubados e vendidos como qualquer outro produto. Basicamente a obra passa a mensagem de que o mundo futurista é, na verdade, a nossa época atual, só que com robôs que podem adquirir a forma humana. Isso é insignificante e frustante, pois a premissa vendida pela sinopse não se concretiza. Como ficção científica, Hal definitivamente não tem nada. A sinopse nos mente e mente muito. Essa é a primeira das mentiras.

-Romance?

Bem, Hal não é um mangá de ficção científica, mas ao menos o romance é bem desenvolvido, correto? Bem, lamento informar que a gente não tem nada de romance no mangá inteiro. Hal e Kurumi eram um casal, ou pelo menos o mangá nos dá a entender isso, mas um acidente vitima um deles e o sobrevivente passa a ter sérios problemas psicológicos necessitando de ajuda, a ajuda de um robô.

O mangá nos apresenta o protagonista buscando fazer de tudo para recuperar Kurumi, tentado realizar diversos desejos dela. No meio disso, vamos tendo alguns flashbacks mostrando pequenos trechos do passado de Hal. O resultado é que não vemos nada propriamente de romance. É claro que o abalo de um pela perda do outro serve como motivador para a história, mas definitivamente não há nada de romance na obra. A sinopse nos mente e mente muito. Essa é a segunda das mentiras.

-O protagonista Hal

Talvez o grande problema do mangá Hal é ele querer ser grandioso e surpreender, pois ele falha nisso também. Minto, ele consegue surpreender sim, mas não consegue fazer com que essa surpresa seja totalmente credível ou digna de aceitação aos olhos do leitor. E aqui temos spoilers, passe o mouse caso queira ler:

[Início do spoiler]

O grande plot twist na história ocorre nas páginas finais do mangá, quando descobrimos que “Hal”, na verdade, não é um robô. Na verdade, quem morreu em um acidente de avião não foi Hal e sim Kurumi. Hal ficou tão abalado que passou a pensar que era um robô. Para ajudá-lo a se salvar, foi decidido que o robô Q-01 tomaria a forma de Kurumi e eles fariam com que Hal pensasse estar ajudando ela, até que ele caísse em si e se lembrasse totalmente de sua vida. Convenhamos, isso é simplesmente sensacional. Uma reviravolta das boas, daquelas de explodir a cabeça e que você ficaria pensando por dias e mais dias. Isso se a história fosse feita por uma roteirista competente. 

A verdade é que você não tem uma preparação para isso e esse plot twist é jogado na sua cara. Não chega a ser um deus ex-machina (aquela solução tirada do nada para concluir uma história), mas o desenvolvimento para se chegar ao desfecho é completamente falho. Ao reler o mangá, você consegue até encontrar uma pista ou outra, mas soa forçado demais. Vários “duplos sentidos” característicos de história que querem surpreender simplesmente são impossíveis de serem vistos dessa forma se não for de uma maneira muito forçada. Um exemplo ocorre logo no início, quando o “vovô” diz ao robô para salvar aquela criança. Há uma foto de Hal e Kurumi, mas nada implica no duplo sentido. Isso sem contar que quase todas as passagens do mangá não têm qualquer relação visível com o desfecho do título. 

Pense, por exemplo, no filme O sexto sentido. Nele acompanhamos o personagem de Bruce Willis tentando ajudar uma criança que dizia que conseguia ver pessoas mortas. No fim, a gente descobre que, na verdade, o personagem de Bruce Willis estava morto desde o começo, uma reviravolta das boas, um plot twist excepcional. Ao rever o filme, você percebe que absolutamente tudo indicava, de modo muito explícito, que ele estava morto e que só você não havia percebido. Tudo se encaixava perfeitamente. Em Hal, por outro lado, os indícios de que o protagonista não é um robô são tão truncados e difíceis de serem entendidos que o plot twist perde o seu brilho. Em resumo, existem indícios, eles estão lá, mas não foram desenvolvidos a contento. Talvez o número de páginas tenha pesado para isso, talvez a autora não tenha experiência em adaptar o roteiro de outros, tudo é talvez e nunca teremos uma resposta. O fato é que o desenvolvimento ficou ruim e não agradou em nada.

[/Fim do spoilers]

Com esse grande spoilers, mais uma vez se confirma: a sinopse nos mente e mente muito. Essa é a terceira das mentiras.

-Drama

Hal não é ficção científica, é pífio em romance e tem um plot twist pessimamente desenvolvido. Ao menos podemos considerar uma história de drama bacana, correto? Bem, nem tanto. Os elementos dramáticos estão lá (a tristeza pela morte inesperada, as tentativas de ajuda, etc), mas eles não conseguem passar aquele quê de drama que a gente vê em obras como Anohana ou Your Lie In April. É uma obra dramática, é uma obra que é até cativante, mas é fraca nisso. A sinopse nos mente e mente muito. Essa é a quarta das mentiras.


A edição nacional


Hal veio com dimensões de 13,7 x 20 cm, padrão da editora Panini. O mangá teve as capas internas coloridas, mas não teve orelhas. No miolo foi utilizado o papel offset e não há páginas coloridas. A edição acompanha um marcador de páginas. O preço do mangá é R$ 16,90. Trata-se de uma edição física bacaninha, bem maleável, bom para a leitura. Nada a reclamar. Podia ser o padrão da editora Panini, mas isso é impossível a curto prazo.

Em termos de adaptação, o mangá possui o mesmo vício (nocivo) de sempre da Panini: a presença de honoríficos sem qualquer razão aparente de existir. Retirá-los não alteraria em nada na história e nem na compreensão dela. Para piorar essa edição não possui glossário e sequer notas de rodapé explicando o que são esses termos e para que servem. Se Hal for seu primeiro mangá, você vai ficar boiando. Realmente há certas coisas que a Panini faz que são muito difíceis de entender…


Veredicto


Eu passei a resenha inteira falando do mal do mangá, então obviamente a minha análise irá falar para que você não adquira de jeito nenhum, correto? Não exatamente. Como eu disse no início do texto, Hal é um mangá que eu não conseguir gostar e nem odiar ao mesmo tempo e, na verdade, é difícil recomentar ou deixar de recomendar. Mesmo com as diversas mentiras, ele tem uma premissa interessante, surpreende no final, embora o desenvolva de forma precária. Não funciona como ficção científica, não funciona com romance e, tampouco, funciona como drama. A leitura, porém, é agradável, dá para passar o tempo, mas não passa disso.

Acredito que se você tiver menos de 18 anos e gostar de histórias de drama, decerto você irá gostar de Hal, então trata-se de um título bastante recomendável. Se você tiver mais do que isso, acho melhor evitar o título, principalmente se você for muito exigente. Essa é a única recomendação e des-recomendação que eu posso fazer para esse mangá…

De minha parte, eu o lerei por uma terceira vez daqui a vários meses. Dependendo do que for sendo lançado durante o ano, ainda que eu não tenha conseguido gostar e nem desgostar do mangá, Hal entrará facilmente para a lista de decepções de 2017.

Ps: como ficou claro, eu não assisti ao filme, mas isso não interfere em nada, afinal o mangá deve ser analisado e apenas e somente por ele mesmo, como se não existisse uma obra prévia.

***

Ficha Técnica

Título: Hal

Autor: Umi Ayase

Editora: Panini

Acabamento: Papel offset

Número de volumes: 1

Preço: R$ 16,90

Onde comprar: Amazon / FnacSaraiva

***

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10 thoughts on “Resenha: O plot twist que deu errado em “Hal””

  1. Li o meu nessa semana e também me senti de certa forma enganado. Eu não esperava um GITS da vida mas no mínimo algo um pouco mais ambientado no cenário futurista, para pelo menos justificar a sinopse de convivência entre humanos e robôs. Aí ao ler reparo que o robô contratado é como se fosse a “última carta Clown do baralho”, só tem ele na história, com exceção de um outro que aparece em suas memórias. A ideia do protagonista ter um reencontro consigo mesmo é boa mas foi bem pífio mesmo o desenvolvimento… No mais, ótima resenha Kyon, concordo 100%!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Desde que Hal foi anunciado eu me decidi por não pegá-lo. O motivo foi que já havia assistido ao filme e por conhecer a história sabia do ocorrido no final e que ler o mangá provavelmente não me traria nada de novo a essa história, aliás achei o filme bom e com um final fechado, nada a acrescentar ou retirar.

    Essa resenha de Hal só me deixa mais certo de que a Panini está bem equivocada em relação a seus produtos. Hal era o tipo de mangá que poderia muito bem ter saído com um preço menor e a qualidade mais básica de miolo em jornal. Já obras como Inuyashiki (voltado ao público um pouco mais maduro e apenas 10 volumes) e principalmente Hikari no Machi (seinen, volume único) com uma qualidade melhor. Sinceramente não consigo ver lógica alguma nessa editora.
    Moral da história: Eu não comprarei Hal, nem Inuyashiki e Hikari no Machi. A editora poderia ter conquistado mais um cliente para duas obras e acabou perdendo um para três.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Com a visão adquirida com o pessoal das HQs. Eles relançam em capa mole as coisas boas, pois sabem que vai vender e o que é ruim eles juntam tudo, fazem uma mega edição bonitona, capa dura, papel couché, com a maior qualidade, pois tem pessoas no mercado que só compram pelo acabamento.
      O único jeito que vejo disso mudar é que nós, que compramos pela qualidade da história, deixemos de comprar quando o acabamento for ruim para as histórias boas.

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      1. Cara, me desculpa, mas nem é bem por ai não. Eu como colecionador de HQ posso dizer isso. Se fosse assim não teríamos edições caprichadas de Sandman, Do Inferno, Liga Extraordinária e etc. Concordo que tem coisa ruim sendo publicada em capa dura, mas discordo que o motivo para isso seja pelo fato do leitor comprar só pelo acabamento, até porque quem paga por essas edições são bem críticos.

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  3. Nem me despertou interesse tal título, ainda mais depois de ler o texto, tenho a certeza de não pegá-lo!

    Realmente anda difícil entender o amadorismo da Panini. Seinen não vende, mas vai tentar achar por aí as coleções de Monster e Gantz por exemplo, vamos ver se realmente não vendem…

    Inuyashiki eu já não ia colecionar, e até entendo a editora optar pelo formato padrão (como pelo jeito irá fazer com Pluto), pois a obra anterior do autor também veio neste formato padrão (claro, isso foi o motivo que eu li). Se bem que antes não havia tanta reclamação com papel, agora virou moda!

    Mas vou te falar, Hikari no Machi, aquela delícia, vir nesse padrão é até crime! De quê adiantou testar formato com Planetes, sendo que já não estão mais a fazer aquilo que disseram?

    E essa história de combinar com o formato de outra série do mesmo autor caí por terra com Planetes; afinal, Vinland Saga é formato simples e Planetes é luxo. É… anda difícil compreender o que a Panini tá pensando. Estaria ela tão segura de si, que nem se importa com seus clientes? Eu vivo me perguntando isso…

    Curtido por 2 pessoas

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