Opinião

As releituras de gêneros de Ataque dos Titãs

Discutindo um pouco os motivos para tamanha fama

Independente de gosto pessoal, temos todos que reconhecer que Ataque dos Titãs (Attack on Titan ou ainda Shingeki no Kyojin) é uma obra de fama e peso, atualmente o segundo mangá mais vendido (por volume) no Japão, perdendo apenas para One Piece. Muitas vezes me pergunto como seria possível justificar tamanho sucesso de uma obra tão “feia” e às vezes super mal desenhada.

Dificilmente Ataque dos Titãs é o primeiro mangá de muitos defeitos que alcança grande fama, então o que seria a grande razão que faria os leitores ignorarem os problemas? Acredito eu que a resposta seja a originalidade. Nem sempre a originalidade está ligada à criação do zero de algo, mas à criatividade da releitura, de se usar algo “normal” de forma inusitada.

É a mesma lógica por trás do enorme sucesso de Sailor Moon, o primeiro “Mahou Shoujo” de combate, a ideia de que as garotas mágicas (que já existiam, mas parecidas com bruxinhas) se transformariam como os super-heróis americanos, tendo duas personas distintas, para assim poder lutar pelo que acredita ou contra inimigos, etc. A mesma lógica de inovação veio com Puella Magi Madoka Magica, onde a transformação que antes dava poder às garotas, agora as corrompia e consumia.

É claro que apenas uma boa ideia não é a garantia de sucesso, mas não dá para ignorar como a inovação traz consigo um ar de “novidade”, como instiga a curiosidade e surpreende. Afinal, sem esse quê único, se destacar dentre tantos outros acaba sendo um processo muito mais árduo.

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Seria Ataque dos Titãs realmente inovador?

Como comentamos inovação não precisa ser necessariamente algo totalmente novo do zero, mas releituras, a utilização de algo de forma diferente, de forma nunca vista antes. AdT possui várias releituras, algumas mais inovadoras que outras, mas talvez a sua força esteja exatamente na quantidade desse artifício. Vejamos ponto por ponto como o autor recicla diversos gêneros e ideias.

Atenção: Para aqueles que não desejam tomar spoilers, a análise a seguir se concentrará no material dos primeiros volumes, equivalente à metade da primeira temporada do anime. Quando houver algo além, estará devidamente escondido.


Zumbis e Gigantes


Não é muito difícil de reconhecer os titãs como releituras dos zumbis (não que sejam de fato): seres de aspecto grotesco que anseiam pela carne humana. Não há o aspecto infecção da coisa, mas todo o pavor de ser comido, perseguido e viver excluído em certa área é diretamente retirado das milhares de obras de zumbis. Ao mesmo tempo, os titãs são bem diferentes, seja pelo seu tamanho, pela sua origem (se você ler a obra vai entender em algum momento) ou pela ausência do fator infecção. Junto com essa releitura de zumbis veio todo o horror, o sangue e carnificina, que inegavelmente transforma a série num autêntico mangá de horror.

Também não é difícil fazer uma correlação dos titãs com a cultura greco-romana, com os ciclopes, gigantes que comiam carne humana, ou aquela velha ideia do jovem de coração puro contra o gigante, como Davi e Golias, como a imagem no topo.


Mecha


Talvez você não tenha percebido isso ainda, mas quando Eren se transforma no titã, ele está de fato dentro daquele corpo, de certa forma o “pilotando”. De fato, seria um titã pilotável, um mecha de carne e osso. Vejamos a definição de mecha da Wikipédia:

Um mecha (…) é um robô gigante (geralmente bípede) controlado por um piloto ou controlador, (…) geralmente uma máquina de guerra ou combate com pernas, cujos principais oponentes são monstros gigantes ou outros mechas. Geralmente são construídos em formato antropomórfico (de ser humano) ou de animais.

O “titã pilotável” é um corpo externo, bípede, de aparência antropomórfica, pilotado, usado como máquina de guerra e combate, cujos oponentes principais são outros monstros e “titãs pilotáveis”. A diferença óbvia é que não se trata de algo mecânico, não é um robô, é algo de carne e osso criado a partir do “piloto”.

Até aí nem todo mecha é de fato mecânico, em Knight of Sidonia também houve a inovação do conceito de mecha com um mecha híbrido com alien, um mecha vivo. Ataque dos Titãs o mecha também estaria “vivo”, mas uma extensão sem vontade própria, algo mais próximo do conceito de biotecnologia. Até mesmo mechas com “vontade própria” ou “consciência” não são tão incomuns, como em Neon Genesis Evangelion.

A inovação do autor está em não só dar essa dualidade zumbi-mecha aos titãs, como em apresentar um mecha totalmente biológico e extensão de seu piloto. SPOILER “Mechas” que passam de corpo a corpo via consumo do piloto original, um “mecha via infecção ou consumo”, algo muito inusitado. FIM DO SPOILER Não que seja um autêntico mecha, mas uma releitura, uma adaptação do gênero. Note na imagem abaixo como é inegável a impressão de serem dois robozões.


Distopia/Alta Fantasia Apocalíptica Medieval


Obras distópicas ou de alta fantasia também não são novidade, futuros ou realidades que lembram a idade das trevas (com a perda de tecnologias e conhecimento) também não são necessariamente inovadores. Mas a união de todos os aspectos, dão um ar diferente à obra, não só o ar medieval em si, de ignorância e vida simples, mas os castelos, fortalezas e a existência de realeza. Dá até para fazer uma correlação com a luta contra invasores “bárbaros” da Eurásia, na obra substituídos pelos titãs, lembrando os assaltos à Muralha da China ou aos feudos e castelos europeus. O próprio autor comenta nos livros como se baseou em muralhas e castelos reais para criar a ideia do reino.

Junto com a distopia vem toda uma realidade social e política, problemas entre “classes”, intrigas políticas entre generais, nobres e diferentes partes da população. Problemas de espaço, problemas econômicos e toda aquela ideia de revolução. Resgatando aquele velho gênero de luta contra o poder abusivo que você encontra em séries como Code Geass.


Combate de Espadas Aéreo


Uma das coisas que chama muita atenção na série são os combates, uma união de cavalaria, combate aéreo e espadachins, tudo com um quê steampunk no tipo de armamento e ao mesmo tempo medieval com os cavalos e lutas de espada. Os jetpacks especialmente, são uma mistura de Homem-Aranha e mandaloreans, algo inusitado e diferente que por si só torna tudo muito interessante e único.

A predominância de armas brancas também traz a ideia de samurais e espadachins, que querendo ou não fazem enorme sucesso até hoje, desde versões tecnológicas como os sabres de luzes de Star Wars, até as centenas de obras históricas de espadachins que vemos no Japão, como Samurai X (Rurouni Kenshin).

Somando tudo isso você mais uma vez encontra a inovação do autor que conseguiu criar um estilo de combate difícil de ser classificado, mas que ainda assim passa uma naturalidade e razão de existência que não parece forçado.


Mistério a Conta-gotas


Pode ser que surpreenda eu citar isso como uma das inovações do autor, porém a verdade cruel é que, no mundo dos mangás, um autor que tem um roteiro já preestabelecido é raríssimo. Por causa da forma de produção, em algumas revistas com o autor sendo forçado a “mudar” para agradar o público imediato, dificilmente há histórias longas com esse tipo de estrutura. Uma história onde lhe é dado quase nenhuma informação e dezenas de mistérios que aos poucos vão se resolvendo e dando luz a mais mistérios, de forma intrincada e coesa.

É o mesmo processo de criação de sucessos como Harry Potter e Game of Thrones, é esse esqueleto pré-definido que possibilita as surpresas e mistérios que ao ler a totalidade da obra fazem tudo ficar mais claro. As coisas óbvias que você deixou passar na ignorância, as pequenas pistas por todo lado, o tipo de obra que te faz querer voltar e reler, à procura das pequenas peças de quebra-cabeça que você não identificou.

Querendo ou não, embora seja uma ferramenta básica e antiga, utilizá-la no mercado atual japonês acaba sendo uma enorme inovação. Felizmente é algo que vem sendo usado mais e mais, especialmente pela Kodansha (através de suas políticas de não interferência nas obras) e nas novels e light novels.

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Outra coisa interessante da obra é como até o que nos é dito como verdade inicialmente vai se alterando e evoluindo. A ideia de zumbi, por exemplo, é a primeira coisa que lhe é apresentada, um pouco mais a frente vem a ideia do titã pilotável, mais à frente o que é “Titã” vai evoluir mais uma dúzia de vezes. Provavelmente até o fim você não vai entender com certeza absoluta o que são os titãs, o que é aquela realidade, dentre várias outras coisas.

Ou seja, o autor continua te surpreendendo e desenvolvendo os conceitos básicos da obra, com mais inovações de inovações, atiçando a curiosidade do leitor. Seria esse então o segredo de seu sucesso? Difícil afirmar com certeza, mas na visão dessa autora, são coisas assim que me fazem aguardar ansiosa o próximo capítulo, mesmo que o anterior não tenha sido tão interessante assim. Algo dentro de mim quer desvendar todos os mistérios e entender tudo de fato, ansiosamente aguardando mais um capítulo.

E você leitor? Já tinha notado essas releituras? O que você atribui como a causa da fama da série?

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3 thoughts on “As releituras de gêneros de Ataque dos Titãs”

  1. Depois de ver as imagens de Helter Skelter e ler Nigeru Otoku, comparado a esses dois, até que a arte de ATD não é tão ruim, porque a de otoku foi de sangrar a alma de tão feio e a de Helter veio em seguida.

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