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Conheça o mangá Koe no Katachi (A Silent Voice)

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「Koe no Katachi」 taí para provar que shounen pode sim ser mais do que um “mangazinho de pancadaria”.

Conheço muitas pessoas que endeusam o Japão e acham a sociedade lá a coisa mais maravilhosa do mundo. Mas são mangás e autores como estes que nos permitem ver o lado “feio” do Japão, a realidade da sociedade japonesa.

Não sei se você sabe, mas um dos “valores” mais importante para o japonês é a uniformidade. Enquanto no Ocidente atualmente se presa a expressão pessoal, o individualismo e se exige que as pessoas tenham uma “singularidade”, um “diferencial”, no Japão o inverso impera. Para e pensa, quantos mangás você leu que falava de pessoas que colorem os cabelos? Se maquiam ou pintam as unhas? Quantos usam joias ou acessórios de estilos variados? Quantos tinham pessoas vegetarianas? Ou pessoas que simplesmente se recusavam a trabalhar em grupo?

No Japão você deve ser parte do grupo e fazer de tudo para não impor desconforto a essa maioria. Alguém com necessidades especiais, seja por causa de uma deficiência, doença ou ideologia, é considerada um peso. Tudo que é diferente é mal visto pelos japoneses, desde a presença de “estrangeiros” que não seguem seus “valores” apropriadamente (vide casos de preconceito com coreanos, chineses e negros), até os de etnias japonesas diferentes (vide a enorme opressão ao povo Ainu). Até a princesa japonesa sofreu bullying no passado por ser, bem, uma “princesinha”.

Por causa disso tudo, pessoas com deficiência são conhecidas por serem excluídas (às vezes vivendo em reclusão) e tratadas como um inconveniente (inclusive pela família), por isso mesmo nas escolas são muitas vezes vítimas de abuso, e atormentadas. E dificilmente é uma questão apenas envolvendo as crianças: os professores ignoraram, os pais ignoram, a sociedade ignora. Somada à imensa independência que as crianças têm (lembrando que estamos falando de uma cultura que acha aceitável a criança decidir sozinha não ir mais à escola), vira a fórmula perfeita de criação de bullies, não só um valentão, mas um bullying feito por toda uma maioria.

koenokatachiEm 「Koe no Katachi」 é exatamente isso que vemos acontecer. Somos apresentados a um rapaz Shouya que é despreocupado e animado, cujo único interesse é se divertir. Com a chegada de Shouko na classe, uma moça surda, Shouya se vê curioso e começa a fazer brincadeiras bobas, “testando sua surdez”, como ele mesmo descreve. Embora leve uma bronca do professor (que ele não consegue totalmente compreender), seus colegas o estimulam achando graça e dando atenção.

As brincadeiras continuam e mais uma vez ele leva uma bronca, mas desta vez o professor diz que o “compreende” e que realmente é uma situação incômoda. Shouya interpreta isso como uma aprovação do professor e de que a culpa é de Shouko, ela quem está incomodando todo mundo e o menino toma para si mesmo a responsabilidade de fazê-la entender o desconforto que está causando no restante da classe. Estimulado por todos os lados, as brincadeiras de mal gosto saem do controle, causando dor física, humilhação e prejuízo financeiro à garota. Até o momento que o diretor interfere, já que a mãe de Shouko reclamou dos danos e custos.

E aí que vem a enorme sacada, com o diretor exigindo um responsável, todo mundo, desde o professor até os alunos, deduram Shouya como o culpado, afirmando que “tentaram impedi-lo”. Frente a isso ele tenta se defender e apontar como todos eles também se envolveram e apoiaram, sem sucesso. Agora a sala toda o trata como pária e começa a se vingar por ele ter “ousado” tentar por a culpa neles e por ele ser um bully.

A história continua até o momento que Shouko sai do colégio e Shouya acaba se excluindo totalmente, guardando rancor e ódio de tudo e todos. É a partir daqui que realmente a história começa, anos depois, Shouya vai se encontrar com Shouko para se desculpar e tentar corrigir seu erro. E é esse esforço e o desenvolver da relação deles que você acompanha nos demais 6 volumes.

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O primeiro volume é praticamente um enorme prólogo, que foi o que descrevemos de forma resumida (e propositalmente escondendo umas coisas para não tirar a graça) acima. Na verdade, esse volume é impressionante, você poderia muito bem apenas ficar com ele e ignorar o resto da história e do melodrama do final (e como fica melodramático). Não que o resto da história não tenha seus pontos fortes, mas esse início é por si só uma obra-prima.

As críticas sociais, o desenvolver, é quase perfeito. Não tem como não ficar incomodado com o que vai se passando, de não sentir a “injustiça” ou raiva de como as coisas vão acontecendo. Você vai vendo como pequenos “erros” vão se somando e acumulando e de como todo mundo tem culpa daquilo. Não se trata de uma criança má, é a sociedade, os professores, os pais que permitem que aquela criança se torne um bully. É uma história simplesmente envolvente e real, cruelmente real.

A continuação ainda trabalha alguns desses pontos levantados no prólogo, mas se foca mais na relação dos dois, de Shouko e Shouya, na reintrodução de Shouya na sociedade, na exploração dos outros personagens que o abandonaram e o que passava na cabeça deles. Infelizmente o final não me agradou nada e a autora deu umas tropeçadas na relação, que parece terem sido “corrigidas” no filme. Mas mesmo assim a obra continua a valer muita pena, fica sendo mais uma questão de gosto pessoal.

Se eu pudesse definir uma moral ao final do livro, seria que não há vilões ou pessoas ruins, mas circunstâncias ruins. Toda aquela raiva e frustração do início contra certos personagens vai se dissolvendo conforme você é exposto à humanidade deles, ao fato de que eles também erram, também tem medo ou não tinham “experiência” e “conhecimento” o suficiente para lidar com aquilo. É a noção de que as coisas não acontecem por culpa de um só, do cara mal, mas por uma construção social, que todos têm culpa, tanto a vítima, quanto o bully, quanto a plateia.

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Outro ponto em especial que me deixou bestificada foi um flashback mostrando quando a família de Shouko descobriu sua situação. Você presencia a mãe de Shouko sendo “culpada” por ter dado à luz uma menina surda pelo marido e seus pais. Uma situação que, mais uma vez, denuncia o lado horroroso do Japão, afinal trata-se de um país extremamente machista e patriarcalista. Após todo esse confronto e a tentativa da mãe de defender sua filha, sem sucesso, o pai abandona a família, sua filha pequena e a mãe grávida, se abstendo de quaisquer responsabilidades monetárias ou familiares para nunca mais voltar.

Com cenas como essa eu começo a pensar se a autora usou alguém de base ou está contanto alguma experiência própria, porque os detalhes e críticas sociais são muito acuradas e precisas.

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Mas bem, esse é o roteiro, e como fica a arte? Dificilmente alguém pegaria uma ilustração da autora e elegeria como a mais impressionante, seu traço e estilo é limpo e claro, sem nada rebuscado que chame atenção. Não que seja ruim ou feio, só é simples, às vezes realista, ainda assim bem “suave”.

Contudo, esse não é o único fator a se considerar quando estamos falando de um quadrinho onde a arte é narrativa e deve mostrar movimento, passagem de tempo, etc. Nesse quesito de técnica e ferramentas a autora dá um baile na grandíssima maioria dos autores que conhecemos, produzindo páginas fluidas com angulações variadas focando em diferentes pontos de vista e movimentos. A tal ponto que eu sugiro a todos os “mangakás” brasileiros que estudem a obra, estudem as técnicas.

Confira algumas páginas abaixo, clique para ver em tamanho maior:

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Pôster japonês do filme.

O mangá 『Koe no Katachi』, também conhecido pelo título ocidental 『A Silent Voice』 (literalmente A Forma da Voz ou Uma Voz Silenciosa) foi originalmente publicado de agosto de 2013 a novembro de 2014 na revista 「Weekly Shounen Magazine」 da editora Kodansha. Foram ao todo 7 volumes (62 capítulos no total), tendo ganhado um filme ano passado em setembro.

A série foi escrita e desenhado por Yoshitoki Ooima, com a consultoria da associação de surdos japonesa, o que traz para a série ainda mais realismo e fidelidade muito grandes.

Surpreendentemente, essa é uma das primeiras obras da autora, mas levou anos para ser publicada. Tudo começou com uma oneshot que ganhou o primeiro lugar no concurso “Best Rookie Manga” em 2008, mas por causa do tema crítico teve sua publicação negada. Decidida a publicar a sua história a autora entrou com um processo judicial e após anos foi finalmente publicada em fevereiro de 2011 na 「Bessatsu Shounen Magazine」, onde também atingiu a primeira colocação.

A série de fato só foi serializada em agosto de 2013. No total a autora levou mais de 5 anos para conseguir a chance de publicar sua história, em grande parte devido ao preconceito e resistência quanto ao tema e críticas abordadas. Japoneses são bem conhecidos por preferirem ignorar e fingir que os problemas não existem, por isso mesmo obras de crítica social e política são raríssimas.

A obra fez grande sucesso, atingindo a marca de 700 mil cópias por volume. Também recebeu a premiação de novo artista em 2015 no Tezuka Osamu Cultural Award, além de premiações e nomeações em outros países.

Atualmente a autora está publicando a série 「Fumetsu no Anata e」, que acompanha um “ser” imortal em suas viagens por “novas experiências”, que inclusive já foi licenciada nos EUA, mesmo só tendo 2 volumes.

Confira abaixo todos os 7 volumes originais japoneses da série:

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No Brasil o mangá foi anunciado pela editora NewPOP, previsto já para abril. Deve ser lançado no formato padrão da editora (papel offset, miolo costurado) e com os mesmos 7 volumes originais. Também foi comentado que o título virá traduzido como “A Voz do Silêncio”.

Particularmente, consigo ver a história como um substituto para 「Usagi Drop」, que também possui um quê de crítica social e drama familiar.

Para quem não quer esperar, o Crunchyroll possui todos os capítulos em inglês no site disponível para assinantes: aqui.

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「Koe no Katachi」 acaba sendo um daqueles mangás que você lê muito facilmente e se sente muito envolvido, com certeza uma obra que você deveria dar uma chance. Especialmente o primeiro volume!

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19 thoughts on “Conheça o mangá Koe no Katachi (A Silent Voice)”

  1. Esse é compra certa! Tomara que a NP não demore uma eternidade para lançar. Eu sabia que KnK provinha de um one shot mas não sabia dos problemas que a autora enfrentou para publicar sua obra. Gostei das capas de todos os volumes.
    Estou acompanhando Fumetsu no Anata e que começou muitíssimo bem (o primeiro capítulo é maravilhoso) e me parece ser bem interessante.

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  2. Achei ótimo ter vindo pela NewPop, a qualidade deles dá um banho na Panini e na Jbc. O único porém, é a periodicidade, abandonei Alice Hearts por esse motivo. Espero que não aconteça com Koe no Katachi.

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  3. Este é um dos títulos que mais aguardo esse ano junto com Shigatsu. Fiquei bem feliz por vir pela NewPop já que não tenho nenhum mangá deles, é um bom título para começar a acompanhar a editora e conferir de perto o material que todos elogiam. Se não me engano quando comecei a ler o mangá terminei em 1 semana de tão hipnotizado que fiquei com a história e a partir daí torcia para alguma editora lançá-lo por aqui.

    Torcer para a NewPop trazer tudo certinho, sem atrasos imensos como já vi muitos comentários que já houve com outros títulos. Mas acredito que a editora está se planejando bem este ano, até por ainda ter GTO para ser publicado.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Já li essa obra 5 vezes e vou ler outra vez quando a NewPOP lançar, é uma lição de vida, é fantástica. O final é um pouco “decepcionante” se comparado ao resto da obra, mas não é ruim.

    O primeiro volume é, como você bem disse, perfeito. Todo o passado dos dois, a decisão que o Shouya tinha tomado quando vai procurar ela é pesada, mas de certo modo compreensível quando vemos o passado deles. Quando eu recomendo Koe No Katachi para algum amigo, eu sempre digo que não é obra pra se divertir, é uma obra para se pensar.

    Você disse que “Dificilmente alguém pegaria uma ilustração da autora e elegeria como a mais impressionante”, mas sabe que uma das minhas imagens favoritas é de KnK. Quando reformei minha estante com cenas de mangás, umas das 10 primeiras que escolhi foi justamente da obra, e ainda hoje ela me emociona um pouco, por tudo que significa após vermos o flashback deles: http://imgur.com/mCq2y14

    Ótimo post Rose, conseguiu expressar bem meu sentimento com Koe no Katachi.

    Só por curiosidade, qual o nome que você acharia melhor para a obra? A Forma da Voz ou Uma Voz Silenciosa?

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    1. Bem, não necessariamente, aí o Cassius estaria tentando dizer que é algo diferente do “mainstream” do mais “comum”. A minha crítica ao comentário foi mais o fato de “menosprezar” qualquer outro gênero de Shounen, classificando-os como “de mentira”. Que tipo de leitura você gosta é pessoal seu, mas dizer que o que você gosta é o de verdade o que presta, isso é um ato de arrogância e até desrespeito. Você vê isso muito em músicas, gente “erudita” que sente a necessidade de dizer que pagode, forro, arrocha ou funk são lixos ou não são músicas de verdade. É uma forma de deslegitimizar o gosto de alguém.

      Não acho que ele teve necessariamente a intenção consciente de ofender ninguém ou desrespeitar o gosto de quem gosta dessa obra. Mas eu quis mostrar a ele que a linguagem usada foi “inadequada”, que podia ser mal interpretada, que poderia ser ofensivo, desrespeitoso. Entende? 🙂

      Curtido por 3 pessoas

      1. Eu te entendi desde o começo, o que muda é que temos uma interpretação diferente do Cassius falando. Pra mim, quando ele diz “é shoujo, mas diferente”, eu sinto como se estivesse menosprezando os shoujos “normais”, como se ser shoujo fosse ruim, por isso ele precisa destacar que tal obra “é shoujo, mas é diferente”.

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        1. Confesso que faz muito tempo que assisti esse evento e já não me recordo do tom dele, mas conhecendo o Cassius e seu “é Shoujo, mas é bom”, não duvido nada. Rs.

          Curtido por 1 pessoa

  5. O que é engraçado porque, quanto menos o autor foca em pancadaria, melhor o mangá costuma ser.

    Nunca li esse mangá aí mas vou comprar.

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    1. O que mais me incomoda atualmente de “pancadaria” é como alguns autores passam volume e volumes numa mesma luta… Tinha volumes de Gantz, por exemplo, que eu lia em alguns minutos, afinal você só passa o olho na cena de luta e vira a página. Fica um quê de desperdício de páginas. Nesse aspecto eu concordo com o “ter menos pancadaria”, rs.

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  6. Nossa que legal!
    Eu não li todo o texto, não sei se tem spoilers no meio.
    Em todo caso, adorei o que li, esse eu vou comprar com certeza.
    Vlws pela indicação.

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    1. Dan, apenas spoilers “gerais”. Nada específico e sempre apenas do volume um. Afinal a intenção é conhecer um pouco da série! 🙂

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  7. Eu tinha marcado ele como DECS, mas depois deste texto… Mudei para BACS e agora eu irei compra-lo com toda a certeza. Excelente texto, Roses. Eu vi um quê de Vitamin, no 1º volume do mangá, o que me chamou bastante a atenção.

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Os comentários estão encerrados.