Desmistificando

Desmistificando: Um pouco de história japonesa

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E em que momento acontecem as obras de cunho histórico lançadas no Brasil

Um lado ruim de ler mangás históricos, especialmente da história japonesa, é que não temos a menor ideia do que está acontecendo historicamente, quem são aqueles grupos e personagens, nem muito menos entendemos as piadas e trocadilhos. Não ajuda que aquilo é tão, tão básico para um japonês que não há explicações, tirando as notas que aparecem aqui e ali em algumas edições, geralmente adições brasileiras.

A ideia aqui hoje, então, é apresentar os principais períodos da história japonesa (alguns pequenos são geralmente englobados em maiores) e os principais acontecimentos, identificando as obras que se passam nesse dado momento e ajudando o leitor a fazer a ponte entre essas várias obras. É claro que faremos isso de forma simplificada, então caso queiram saber mais sobre um assunto, procurem e pesquisem mais sobre aquele certo período!

***

A primeira coisa que você precisa saber é que o Japão tem sua própria forma de contar tempo e tem muita influência do calendário lunar chinês. Com a ocidentalização do Japão muitas coisas foram perdidas e adotadas, mas algumas coisas persistem, como a forma de contar os anos em períodos, que geralmente ganham nome de cidades, capitais ou imperadores.

Cada um desses períodos e eras recomeçam a contagem de anos do um, assim o primeiro ano da era Meiji é Meiji 1, equivalente a 1868. O problema aqui é que as eras podem terminar e começar de qualquer data, criando situações como um ano ocidental que é parte de dois períodos, logo dois anos, japoneses. Um exemplo disso é o ano de 1345, de janeiro até 21 de dezembro desse ano, trata-se do ano 4 do período Koei (Koei 4); de 22 de dezembro até o fim do ano, trata-se do ano 1 do período Jowa (Jowa 1).

Por causa desses vários detalhes, lidar com essas datas é super confuso para um ocidental, felizmente a maioria dos tradutores ou passam a data para o nosso calendário, ou colocam um adendo com o ano equivalente. Mas mesmo que não seja importante saber as datas em si, os períodos continuam sendo usados nos mangás, mesmo em português. Você já deve ter lido algo falando de período Edo, era Meiji ou Shouwa, então não tem muito como fugir do calendário deles.

O começo de tudo — períodos clássicos

O Japão se torna um arquipélago no final da Era Glacial, com o aumento do nível do mar e isolação da população na massa de terras que hoje conhecemos como o arquipélago do Japão. Esta época acontece cerca de 5.000 anos atrás, no período chamado Joumon, nome da civilização que ocupava a maior parte do território na época e ancestral dos japoneses, embora seja importante ressaltar quer não o único. Tal período vai de 14.000 a.C. até 300 a.C..

Em 300 a.C. chega o arroz na ilha, proveniente da China, mudando para sempre o futuro daquele povo, a partir de então começa o período Yayoi que se estende até 250 d.C.. Essa época foi marcada por diversos povos e aldeias distintos espalhados por todo o arquipélago, cada com sua cultura e até línguas e dialetos distintos. Graças à cultura do arroz, uma explosão de população e conhecimento começou, em parte influenciada pela cultura chinesa (nessa época no auge das dinastias imperais Qin e Han). Com esse aumento de pessoas, começam a se formar rixas entre vilarejos e o início de forças militares, culminando em lutas territoriais sangrentas e o início dos primeiros reinados.

Com a formação de reinados maiores e posterior formação do império, chegamos ao período Yamato (nome de um desses reinos que englobou os demais), divido em Kofun, de 300 a 552, marcado pela religião xintoísta, e Asuka, de 552 a 710, marcado pelo budismo (trazido de onde hoje é a Índia). Foi uma época de maior centralização do poder, logo mais pacífica com grandes avanços culturais, além de grandes construções e desenvolvimento de cidades, entre eles enormes túmulos e templos.

Vale a pena comentar também que é nesse período que o japonês acaba virando o “padrão” da ilha, várias outras pequenas culturas e povoados acabam sendo engolidos pelos reinos. Embora muito tenha sido perdido, várias coisas sobreviveram localmente, diferenças de pronúncia, de arquitetura, diferentes lendas e costumes, por exemplo.

No período seguinte, Nara, de 710 a 794, houve grandes avanços, com enormes metrópoles e riqueza, estabilização da aristocracia e monarquia ao redor da família imperial. Uma das grandes novidades do período foi exatamente o início do sistema de escrita japonês, adaptado dos caracteres chineses, e literatura japonesa. O nome vem da cidade que se tornaria a capital que foi construída nessa época.

O último período clássico é Heian, de 794 a 1185, o ápice da corte imperial e começo da descentralização do poder, que agora começava a se concentrar nas mãos dos nobres de cada região, que passaram a se armar e proteger suas terras. Nessa época a capital foi transferida para Heian, atual Quioto, daí seu nome.

Foi nesse último período que começa o bushidô, o sistema de vassalagem japonesa que daria à luz os Samurais. Essa classe guerreira (bushi) tornou-se indispensável para manter o poder dos nobres e, com o aumento de poder nas mãos deles, o período termina de forma sangrenta, com tais guerreiros tomando o poder dos nobres e iniciando lutas territoriais entre eles mesmos e outros nobres, até a consolidação do primeiro xogunato, um governo ditador centrado na figura militar.

Até aqui é muito difícil de se encontrar mangás e animes que se passam na época, com alguns aqui neste último pedaço, com o início do bushidô e xogunato, além da perda do poder imperial que passou a ser figurativo, entretanto nenhum deles de fama.

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A vez dos xogunatos — era de ouro dos samurais

Com o primeiro xogunato começa o período Kamakura, de 1185 a 1333, terminando com a restauração do império, que durou míseros três anos, período chamado Kenmu (1333–1336) e voltando a ter um xogum no poder, iniciando o período Muromachi (1336–1568).

Foi durante esse período que chegam os portugueses e o cristianismo no Japão, além das armas de fogo europeias. Embora pacífico durante boa parte do tempo, termina com a primeira grande guerra civil japonesa, alimentada pela insatisfação popular e pobreza que fragilizou o governo.

E é aqui que entra alguém que você com certeza já ouviu falar, Oda Nobunaga. Com o Japão voltando a ser descentralizado, vários líderes militares, chamados daimiôs, passam a formar alianças e a tomar territórios, também é a época dos castelos japoneses. Um desses foi Nobunaga que, formando alianças, avança contra o xogunato em ruínas, levando a diversas batalhas durante o período Azuchi–Momoyama (1568–1603).

Toda essa época de guerra civil e lutas entre os daimiôs é chamada de Sengoku, é onde vemos as várias lutas de samurais e disputas de poder. Obras que acontecem nesse período incluem: Vagabond (Inoue Takehiko), Brave 10 (Kairi Shimotsuki), Dororo (Osamu Tezuka) e Inu-Yasha (Rumiko Takahashi).

Com o fim das guerras civis, o governo  se torna mais uma vez centralizado e a capital se muda para Edo, dando então início ao período Edo ou Tokugawa (1603–1868) sob o poder do agora xogum Tokugawa e seus aliados. Mais uma vez o Japão goza de crescimento populacional, fortalecimento econômico e cultural, inovações tecnológicas na agricultura e manufatura, voltando a estabelecer grandes metrópoles, isso tudo isolados do resto do mundo.

O período Edo chega ao fim com o Bakumatsu (1853-1867), período em que o Japão foi dividido entre aqueles que apoiavam a continuação do xogunato Tokugawa, entre eles a força policial Shinsengumi, e os que apoiavam a restauração imperial, geralmente chamados nacionalistas.

Tudo isso é possível de se ver nas obras que se passam no período: Lobo Solitário e Samurai Executor (Kazuo Koike e Goseki Kojima), Samurai Champloo (Masaru Gotsubo), Nura (Hiroshi Shiibashi), O Livro do Vento (Kan Furuyama e Jiro Taniguchi), Blade (Hiroaki Samura), Basilisk (Fuutarou Yamada e Masaki Segawa) e A Lenda de Kamui (Sanpei Shirato), além de Mononoke (Yaeko Ninagawa), Samurai Deeper Kyo (Akimine Kamijou), Gintama (Hideaki Sorachi) e Sidooh (Tsutomu Takahashi).

A volta e queda do império — a completa transformação do país

Rurouni Kenshin 01As lutas terminam com a vitória e volta do império, depois de 700 anos de xogunato, dando início a era Meiji (1868–1912). O imperador foi responsável pela revolução tecnológica que deixou para sempre a época feudal do Japão no passado. Neste momento os samurais também são extintos junto com o bushidô e a vassalagem que era o centro do poder dos antigos xoguns. Tudo isso é fácil de ver em Rurouni Kenshin (Nobuhiro Watsuki), que também mostra os anos do Bakumatsu em certos arcos.

É neste período que o Japão começa a despontar como potência mundial, entrando em lutas contra a China e Rússia, diretamente se envolvendo com seus vizinhos em atitudes claramente imperialistas. Além das externas houveram também expansões internas, foi aqui que o império japonês finalmente se estendeu por todo território que hoje conhecemos como Japão, anexando a ilha de Hokkaido por inteira definitivamente.

Durante esse processo o povo Ainu, que até então controlava o território norte, foi submetido, tendo sua designação de aborígene tirada e sendo forçado a assimilar a cultura e língua japonesa, a se tornar só mais um japonês. Tal medida resultou em grande perda cultural, além de incitar enorme preconceito e discriminação por parte dos japoneses. A situação só veio a ser “corrigida” em 2008, quando o governo japonês voltou a aceitar o povo Ainu como aborígene e a proteger seus direitos, além de se desculpar e reconhecer publicamente a discriminação sofrida por eles.

Sakura Wars De volta a 1912, com a morte do imperador e a ascensão do próximo, dá-se início a um novo período, a era Taishou (1912–1926). Neste curto período o mundo ocidental se afundava na primeira guerra mundial, enquanto o Japão se organizava e se envolveu ainda mais com os países europeus. Não há muitos mangás se passando nesse período curto, mas podemos citar Tactics (Kazuko Higashiyama e Sakura Kinoshita), Kimetsu no Yaiba (Koyoharu Gotouge) e Sakura Wars (Ouji Hiroi, Kosuke Fujishima e Ikku Masa).

Com a entrada do imperador Hirohito temos o início da era Shouwa (1926–1989) e a militarização exacerbada do país que geraram diversas guerras com seus vizinhos, culminando no envolvimento na segunda guerra mundial e as explosões nucleares de Hiroshima e Nagasaki. Alguns mangás desse período são Hiroshima (Fumiyo Kouno) e Gen Pés Descalços (Keiji Nakazawa).

Por fim, acabada a segunda guerra mundial, o Japão passa a ser governado por um sistema parlamentar, iniciando o trabalho de reconstrução do país. E com a morte do imperador, dá-se início ao período Heisei (1989 até o presente), o período atual do Japão. Listar as séries que se passam no presente seria uma lista obviamente absurda, visto a quantidade de obra “slice of life” que existe, rs!

***

Como podem ver a história japonesa é uma verdadeira montanha-russa, entre períodos de paz e guerras por poder internas. Chega a ser uma história até “chata” se comparada aos impérios e povos asiáticos e europeus, de um territoriozinho isolado e esquecido. Isso se deve na verdade a diversos fatores externos e geográficos que permitiram os japoneses viverem no mundinho deles.

Sendo um conjunto de ilhas e, ainda por cima, com relevo muito acidentado, cheio de penhascos, falésias e montanhas, sem contar o clima de monções, com períodos muito quentes, muito chuvosos ou muito frios, atacar o Japão já era trabalhoso. Isso sem contar que não tinha muita coisa de valor que interessasse outros povos, como minerais valiosos ou localização estratégica. Como muitas outras ilhas e seus povos, a própria geografia protegeu o território de invasões.

Alem disso durante todo o período clássico, seu único vizinho de força foi a China, que por sua vez estava sempre muito ocupada com disputas internas ou com os mongóis e outros povos vizinhos. O único contato com esses povos acabou sendo via comércio, que trouxe o arroz, as tecnologias de metais, escrita e religião. Durante os xogunatos a China esteve sob controle do Império Mongol que tentou duas vezes invadir o Japão, em ambas as vezes forças externas beneficiaram o pequeno império, como dois tornados, mais tarde chamados de Kamikaze (ventos divinos), que afundaram grande parte dos navios mongóis. Salvos pela mais pura sorte, o Japão continuou isolado. Com a intensificação de conflitos no continente a ilha foi esquecida novamente.

Mesmo com a chegada dos europeus, tais não tinham grande interesse neles, fora o comércio e venda de armas, e o Japão continuou isolado. Apenas com a volta dos imperadores que o país se abriu às culturas e tecnologias ocidentais e passou ele mesmo a conquistar territórios além do seu arquipélago.

Toda essa proteção do acaso ajudou a justificar a ideia de superioridade da raça japonesa e seu direito divino sobre os outros povos. O ápice disso foi exatamente com o expansionismo e invasões de territórios chineses e coreanos, seguidos de várias ilhas do Pacífico (várias pertencentes aos países europeus), culminando no ataque de Pearl Harbor (território americano) na segunda guerra mundial. Período inclusive conhecido pelos pilotos suicidas que gritavam “Kamikaze”, uma alusão aos “milagrosos tornados” que no passado haviam afundado navios mongóis.

Por causa de todo esse isolamento o Japão esteve “atrasado” nas tecnologias da humanidade por um bom tempo (como agricultura, escrita, metalúrgia, industrialização) e só deixou de ser feudal há cerca de 100 anos, quando o imperador e seus descendentes aboliram as práticas que fortaleciam o xogunato e unificaram o país através da construção de vias de transporte, implementação de escolas, fábricas e leis nacionais.

Para se ter uma ideia, enquanto supostamente Kenshin vagava pelo Japão no começo da era Meiji, o Brasil já havia se declarado república. Inclusive ainda existem umas dezenas de japoneses centenários vivos que nasceram exatamente no fim do feudalismo na era Meiji, além de várias pessoas com bisavós e avós que foram legítimos samurais.

A maioria das obras históricas acabam se concentrando por volta do período Edo, quando samurais e seus senhores feudais disputavam territórios. Talvez exatamente por causa desses samurais, antigos guerreiros do passado recente que representam uma pureza e honra, completamente idealizados, não muito diferente da fixação ocidental pelos cavaleiros e donzelas da idade média.

***

Vale lembrar que não listamos todas as obras que citam essas épocas, apenas as centradas, as realmente históricas, há obras que usam esse imaginário como Gate 7, Zero Eterno e Ninja Slayer.

Será que esqueci alguma? Que outras obras históricas você conhece? Sabe dizer quando ela está situada? 😉

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10 thoughts on “Desmistificando: Um pouco de história japonesa”

  1. Post excelente. Tenho curiosidade de ler ‘Showa: A History of Japan’, de Shigeru Mizuki.
    Como sugestão para a coluna, poderia ter uma seção com referências bibliográficas básicas para ajudar quem se interessa pelo assunto abordado.

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    1. Neste caso em específico, o escopo é tão abrangente, que se eu fosse listar sugestão de leituras, ia ficar maior que o texto, sem contar que a grandíssima maioria é em inglês. Eu preferi ao invés deixar tudo muitíssimo bem nomeado, de forma que você pode se interessar por uma época e pesquisar facilmente sabendo o nome. Por mais que casualmente ficar lendo nome de eras possa ser chato e seria muito mais fluído ter contado sem isso, mas foi a escolha que fiz, rs.

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  2. FANTÁSTICO! Brávissimo!! Excelente post!! Eu não conhecida NADA sobre a história do Japão e a explicação misturada com mangás foi genial. Muito obrigado mesmo. =D

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  3. Excelente matéria, explica muito bem o essencial para podermos nos situar durante nossas leituras. Agora, duas dúvidas:

    – Quando você diz que não falou de Zero Eterno, que só citou as “realmente históricas”, foi pelo fato da história se passar no período atual, com apenas flashbacks do período da guerra?

    – Essa não tem muito haver com a matéria, mas: Em Gen Pés Descalços, durante a guerra, o autor mostra os prisioneiros americanos pintando um “P” no telhado de seus alojamentos, para que seus compatriotas não bombardeassem a estrutura. Eu fiz uma breve pesquisa, mas não achei nenhuma referência sobre o fato. Esse fato foi inventado pelo autor ou foi verídico?

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    1. Já li que no final da segunda guerra, os prisioneiros americanos pintavam nos telhados dos prédios dos acampamentos de guerra as letras PW ou POW (prisoners of war: prisioneiros de guerra). Isso facilitava para que os aviões americanos reconhecessem os locais, nos quais eram lançados kits de sobrevivência, com comida e medicamentos.

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  4. Pelo que eu me lembre Nura não se passa no período Edo. Inclusive eles tem até celular e coisas do tipo. o.O
    Talvez o que possa ser tratado como isso seria os flash backs?

    De qualquer forma, ótimo texto como sempre, Roses. Dá pra perceber que houve muita pesquisa aqui, tá de parabéns. ❤

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    1. Confesso que nunca li Nura, mas aparentemente há grande conteúdo de Edo na história pelas minhas pesquisas. Não sei dizer se seriam flashback ou se o autor usou Edo de base como Gintama. Se alguém tiver lido tudo, aceito esclarecimentos! 🙂

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      1. Eu não posso te dizer por que quando eu li parte do mangá, não fiquei me atentando a essas questões. Faz um estilo que casaria com o período sim, mas não sei se é inspirado ou não.

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