Resenha: o interessante mangá “Laços proibidos”

lacosO mangá mais erótico da editora…

I – Mangás eróticos e Laços proibidos

Se existe uma editora que está apostando tudo em mangás eróticos, essa editora é a Alto Astral, por meio de seu selo de quadrinhos, Astral Comics. Desde que o selo surgiu em 2014, a empresa já publicou diversos mangás hentais, todos eles provenientes da editora japonesa Shonen Gahosha.

Boa parte dos mangás, entretanto, eram extremamente simplórios, feitos unica e exclusivamente para vermos relações sexuais entre um casal. Em outras palavras, eram mangás hentais no sentido mais específico que a palavra ganhou no ocidente, pornografia em desenho feito para despertar (e satisfazer?) o desejo sexual dos leitores. O problema é que se você não fosse adolescente, decerto você acharia as situações muito bobas e sem sentido, pois a maior parte das histórias as coisas simplesmente acontecem, do nada.

Em 2016, entretanto, a Alto Astral mudou um pouco e trouxe-nos algumas obras que iam além da pornografia pura e simples e nos apresentavam uma história, ainda que estivessem recheadas de diversas situações eróticas. Não mexa com minha filha! , por exemplo, apresenta uma heroína que luta contra o mal para proteger a filha (também heroína) de se envolver em situações eróticas e constrangedoras no combate ao vilão. Por sua vez, O segredo de Natsuki acompanha a história de Touko, uma virgem de 30 anos, e o plano de sua irmã, Natsuki, em fazê-la perder a virgindade.

Talvez a melhor obra dessa leva seja o lançamento de dezembro, o mangá Laços proibidos, de Ahiru Akano. Completo em apenas um volume, a obra desenvolve a história de Minatsu, uma garota que saiu de casa após seus pais se separarem, e um possível amor proibido. O porquê de ele ser melhor, veremos agora…

lacos-proibidosII – Sinopse Oficial

Minatsu é uma garota com um passado triste. Depois da separação de seus pais, ela acabou se desvinculando da família. Com o desaparecimento de seu irmão Masaya, passou a viver sozinha e cuidar de si mesma. Na noite de ano novo, um garoto misterioso entra na sua vida. Eles passam a se relacionar e ter noites quentes de amor, mas a menina prefere esconder essa relação de todos, por que será?

III – História e desenvolvimento

Como se começa um romance? As histórias eróticas, regra geral, são bem simples e o caso entre duas pessoas ocorre de forma repentina, a partir de um encontro casual ou acontecimento. Laços proibidos não deixa de seguir essa regra. “Comemorando” o ano novo em uma loja de conveniência, Minatsu – a protagonista da história – é abordada por um rapaz alguns anos mais jovens e ele termina por ir ao apartamento da moça, logo entregando-se a uma intensa noite de amor. Não somente a noite, mas o dia seguinte, e a outra noite e o outro dia.

O grande diferencial de Laços proibidos em relação a outros mangás eróticos da editora é a trama que há por trás. O mangá não é feito apenas para mostrar relações sexuais, ele possui toda uma história de amor e romance que é desenvolvida ao longo das páginas. Em pouco tempo os dois desconhecidos já se transformam em um casal, mas devido a um mal entendido ela decide não contar a relação que eles têm. Na frente dos outros, ela finge que o rapaz se chama Masaya e que ele é o irmão mais novo dela.

astral-2

A trama se adensa pelo fato de o rapaz vive a chamar a moça de “neesan” (irmã mais velha) pois ela fica mais excitada quando ele a chama assim. Aos poucos, entretanto, a garota acabará por desconfiar de que o rapaz é realmente o seu irmão de sangue e, portanto, a relação entre os dois seria impossível. A história, então, se desenvolve nesses termos: de um lado, há o fetiche sexual de Minatsu de se sentir possuída por seu irmão mais novo, de outro as dúvidas que perpassam a cabeça dela em relação à verdadeira identidade do “Masaya falso”.

O fetiche não é motivo de problema, obviamente. Ele pode ser embaraçoso como todo fetiche, mas a quatro paredes esse tipo de situação é livre de restrições. Entretanto, uma relação verdadeira de um irmão com uma irmã de sangue seria questionável, amoral, um amor proibido. A própria trama deixa isso bem claro em vários momentos, especialmente quando Minatsu liga para o pai ou quando o “Masaya falso” a possui fingindo ser o irmão verdadeiro dela.

A dúvida sobre esse rapaz ser Masaya ou não perdura durante todo o mangá e, em vários momentos, a gente tem certeza de que ele não é, enquanto em outros, a gente tem certeza de que ele é^^. Minatsu sofre com essa dúvida, pois o seu sentimento por esse rapaz que entrara em sua vida já havia se transformado em um grande amor e se ele fosse seu irmão seria o fim de tudo. Ela tenta todos os meios para descobrir a verdade, mas quando quase consegue, ela se fragiliza ainda mais e o “Masaya falso” vai embora…

O final do mangá acaba sendo bastante satisfatório, pois inverte um pouco da lógica que seria o natural e coloca por terra alguns indícios dados durante o mangá. Muito embora consigamos imaginar quase todas as reviravoltas, a narrativa se sai bem e mostra ser bem feita. Laços proibidos não é nada genial, mas é uma história de romance muito interessante, que nos prende a atenção não somente pelo erotismo e sim também por um enredo bem amarrado.

IV – Erotismo à favor da história 

Existe um lugar-comum que diz que não se deve julgar um mangá erótico/hentai por suas falhas de narrativa, afinal tais obras teriam por objetivo apenas e tão somente a “diversão” do leitor. Não necessariamente isso é uma verdade. Algumas obras podem ter uma boa história e ainda terem erotismo apenas em favor da história.

Dos três mangás lançados este ano pela Alto Astral, Laços proibidos é o que mais tem cenas de sexo, ele é o que, em teoria, mais seria destinado a quem quer apenas “diversão”. Entretanto é o que menos possui cenas inúteis. Basicamente apenas uma sequência de quadros não está integrada no desenvolvimento da história e da relação entre Minatsu e seu “irmão mais novo”, do possível amor incestuoso. Trata-se de uma cena que destoa demais do resto do volume, pois apresenta um casal coadjuvante que, até aquele momento, a gente nem sabia que existia O_o. Todo o resto das cenas sexuais, entretanto, parece bem pensada e estão inteiramente ligadas ao desenvolvimento da trama… Isso faz de Laços proibidos um mangá muito bom, pois por mais erotismo que tenha, ele não é inútil…

V – Erotismo e censura

Apesar do extenso número de cenas eróticas, Laços proibidos é relativamente um mangá “comportado”. São pouquíssimas as cenas mais “ousadas”. Regra geral, apenas seios são mostrados livremente. Outras partes do corpo ou não são mostradas devido ao ângulo em que a cena foi desenhada ou há a conhecida censura japonesa de colocar uma tarja branca nos órgãos sexuais.

O que não quer dizer que cenas mais “pesadas” não existam. Existem sim, afinal a obra é +18 e não é recomendada para quem não gosta de erotismo em obras de ficção.

VI – Onomatopeias

Uma coisa que chamou a atenção no mangá é a ausência quase total de onomatopeias. Conferindo o original, a obra utiliza-se delas normalmente, porém na versão brasileira (quase) todas elas foram apagadas. Vejam a diferença entre uma página nacional e a página original japonesa. As onomatopeias estão circuladas de vermelho:

A retirada das onomatopeias faz os quadros ficarem “mais limpos”, porém muito gente acha errado a modificação delas, pois fariam parte da arte do mangá e as editoras não conseguiriam reproduzir direito as “intenções do autor”. Até então, a Alto Astral deixava todas as onomatopeias no original e não colocava legenda, dessa vez retirou quase todas. Só sobrou uma ou outra “esquecida”.

VII – Problemas de adaptação e revisão

Em relação aos últimos mangás da editora pode-se dizer que Laços proibidos teve melhorias, mas também teve coisas criticáveis. Os erros de revisão de texto diminuíram bastante e encontrei pouquíssimas amostras.

lacos-proibidos-revisao-01

“Que nem agora DE pouco”

Já sobre adaptação de texto alguns questionamentos devem ser feitos. A editora utilizou alguns termos japoneses como “Neesan” e “Neechan” e não colocou nenhuma nota para explicação. Pelo contexto a gente até entende que é um chamamento se referindo à irmã, mas o leitor não tem como saber o porquê de usarem formas diferentes no decorrer do texto.

Pior ainda é o uso do honorífico -kun, apenas mencionado para se referir a um único personagem, novamente sem explicação para isso. Nada novo no mundo dos mangás, o que não faltam são editoras que, mesmo colocando nota, não explicam o porquê de se usar uma forma e não outra.

Apesar disso, de um modo geral acho que a adaptação está satisfatória, ainda que esteja longe de estar perfeita.

VIII – Páginas cortadas

Assim como fez em Não mexa com minha filha! e O segredo de Natsuki, a editora Alto Astral publicou o mangá com menos páginas que o original. Foram três páginas coloridas do início do mangá, todas já com “história” envolvida. As três páginas abaixo não existem na versão brasileira, nem coloridas, nem em preto e branco, foram totalmente retiradas.

Na versão brasileira, o mangá começa na página subsequente a essas imagens, quando a protagonista rememora a situação que levou ela a estar na cama com o rapaz. Essa eliminação de páginas, como dito, não é a primeira vez que acontece. Entretanto há uma novidade aqui.

Sabe tudo o que dissemos sobre a história ser legal e ter uma boa conclusão? Pois é, isso na versão brasileira. Além das três páginas iniciais, a edição disponibilizada simplesmente cortou quase todas as últimas 40 páginas! Isso mesmo, quase 40 páginas foram jogadas no limbo. Basicamente a penúltima página da edição brasileira é a que seria a nº 161 do original e a última seria a página 196. Todas as do meio foram limadas.

Spoiler (passe o mouse por conta e risco) o que tem nessas páginas cortadas? Não sei japonês, mas olhando as imagens o que vemos é a protagonista indo até a casa do “Masaya falso”. Na versão brasileira, a obra termina com Minatsu descobrindo onde o “Masaya falso” estava e decide ir até lá. Ou seja, a obra termina com a ideia de que tudo vai dar certo entre eles e, evidentemente, o amor deles não é proibido. Na continuação que a edição nacional não possui, ela dá um tapa nele, os dois ficam juntos, possuem noites de amor, etc. Há toda uma relação entre os personagens que nós, leitores brasileiros, não veremos. (Fim do Spoiler).

Confesso que prefiro o fim da edição brasileira por toda a questão romântica da coisa, fazendo a obra terminar num clímax interessante, mas a verdade é que o sentimento de “se sentir enganado” acaba ficando. Não são duas páginas que o autor mandou retirar, foram simplesmente quase 40 páginas, 1/5 da história, sem uma explicação oficial do porquê de terem sido retiradas. Por quê isso foi feito?

Só há duas possibilidades em que consigo pensar. A primeira é que a editora quis economizar e limou as páginas que considerou inúteis. A segunda é que a editora japonesa licenciou uma versão modificada do original e a Alto Astral o publicou assim porque era o único material que tinha à disposição.

Quando as páginas iniciais dos dois últimos mangás eróticos da empresa foram retirados, era fácil imaginar que a Alto Astral queria evitar ter que fazer “um caderno” (conjunto de páginas) extra, mas agora em que 1/5 das páginas do mangá não estão presentes talvez seja mesmo questão de licenciamento. Entretanto, só podemos ter certeza disso se a editora se pronunciar. Por ora, fica a frustração…

IX – Conclusão (?)

Depois de tudo isso será que vale a pena adquirir o mangá? Não posso oferecer uma resposta. Primeiro que a história, mesmo sem várias páginas, conseguiu me agradar de forma eficiente e me motivou a comprar a versão física. Segundo que ainda não vimos a edição física (esta resenha foi feita após a leitura da versão digital disponibilizada no site Social Comics) e se ela estiver ruim, com problemas de encadernação, como as de Não mexa com minha filha! e O segredo de Natsuki não valerá a pena…

A versão física deve sair nas bancas durante o mês de dezembro. Ela custará R$ 16,90. Esse é o preço que a editora vem cobrando em edições de papel jornal bem fino. Então, eu repasso a pergunta para os leitores: vale a pena comprar Laços proibidos?

***

BBM

Anúncios

Sobre Kyon_45

Criador do BBM. É fã de Haruhi Suzumiya e das obras do grupo CLAMP.
Esse post foi publicado em Review e marcado , , . Guardar link permanente.

7 respostas para Resenha: o interessante mangá “Laços proibidos”

  1. Roses disse:

    Nas duas paginas exemplos da falta de onomatopeias, note que no primeiro quadro há também três pequenas na parte de baixo. Se você der uma olhada na versão da Alto Astral, vai notar que pedaços da onomatopeia ficaram nos cabelos e roupas dela. Trabalhinho bem porco.

    Curtir

  2. spoonm disse:

    Faltando 40 páginas, não acho que vale a pena comprar. Se foi licenciado somente uma versão modificada(por algum motivo), acho que a Alto Astral não pode fazer nada, mas cortar 40 páginas além das coloridas de início não me parece nem um pouco justo.

    Somando isso ao problema da falta de margem entre o conteúdo e a espinha do livro, não justifica R$16,90. Uma pena, eu quero mais hentais com história no Brasil. :/

    Curtir

  3. Pingback: Retrospectiva 2016 – Outras editoras | Biblioteca Brasileira de Mangás

  4. Pingback: NR 232. Alto Astral se pronuncia sobre as páginas retiradas de “Laços proibidos” | Biblioteca Brasileira de Mangás

  5. Pingback: Resenha: o mangá Lábios molhados [ DIGITAL] | Biblioteca Brasileira de Mangás

  6. felipe otaku disse:

    fito legal muito bom mesmo bom mesmo mas tirar 40 paginas e mais 3 coloridas e tirar ele na casa dele sacanagem mas genial n mostrar ela na casa dele

    Curtir

  7. felipe otaku disse:

    ficou n fito *.*

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s