Desmistificando

Desmistificando: Tamanho dos mercados de mangás 

eua_bra_frComo podemos ter ideia das diferenças entre a quantidade de consumidores nos mercados?


Você já deve ter visto comparações de mercados entre o Brasil e outros lugares por aí. Em algum momento você se perguntou qual o tamanho real dessa massa de consumidores? Se somássemos todos os clientes de todas as obras e editoras, que número chegaríamos?

Infelizmente isso é algo que nem as empresas podem responder com exatidão (mesmo que elas quisessem), usam-se cálculos aproximados para definir o potencial e estimativa da população consumidora. Mas tudo isso está absolutamente fora de questão para nós, pobres mortais.  Então como podemos matar essa nossa curiosidade?

Tiragens e Estimativas de Venda

Uma forma seria analisar tiragens e estimativas de vendas. No Brasil as editoras não informam tiragens exatas e não há muitos que acompanham venda de mangás (às vezes os de livros pegam mangás “sem querer”, como a PublishNews).

Em todo caso, mesmo que tivéssemos tiragens exatas de cada título, atualmente temos muitas obras sendo publicadas simultaneamente, assim simplesmente somar os valores não funciona, pois isso somaria os clientes que compram mais de um título, ficando com um número muito longe do real.

Um exemplo disso é como a Conrad nos anos 2000 informou que Dragon Ball vendeu mais de 100 mil cópias. Atualmente não existe nenhum título que tenha chegado a esse patamar, até onde é informado. Editores costumam falar de números entre 10 e 20 mil. Isso significa que se vende menos atualmente ou que hoje em dia as vendas não estão tão concentradas? Só com tiragens é impossível saber a resposta para uma pergunta dessas.

Em outros países esses números também são raros, tirando o Japão que possui a empresa Oricon que estima vendas nacionais japonesas e as tiragens ocasionais informadas pelas editoras. Estima-se que as tiragens americanas estejam por volta de 50 mil, enquanto no Japão é certeza que existe uma variação de 10 mil a 3,5 milhões de cópias, a maioria concentrada em 50-100 mil, sucessos e best-sellers concentrados em 500 mil, casos raríssimos em 1 milhão ou mais.

Mesmo considerando toda a incerteza de dados, a comparação entre eles já nos mostra a mudança de grandezas entre os 3 mercados.

Número de lançamentos e editoras

Uma ótima forma de verificar a força de um mercado é a quantidade de obras sendo publicada simultaneamente e a quantidade de editoras que o país suporta. O Brasil, por exemplo, tem grande parte publicada por apenas duas editoras, uma pequena e mais uma porção empacada.

Nos Estados Unidos, os números são outros, com cerca de 4 editoras de médio-grande porte (Viz Media, Kodansha, Seven Seas Entertainment e Yen Press), mais umas dezenas de pequenas editoras. Em geral eles acabam lançando o equivalente a um checklist da Panini por semana, com quantidades grandes de relançamentos e reimpressões, fora os volumes inéditos.

Japão então, com três enormes multinacionais, seguidos de diversas outras editoras de vários tamanhos, as maiores chegando a lançar mais de 100 volumes ao mês! Este mês, por exemplo, a Kodansha lançará 197 volumes. O número total de um mês no Japão supera com folga a quantidade de lançamentos em um ano no Brasil!

Comunidades

Outra forma recente de estimar população de consumidores são as comunidades virtuais e redes sociais. É claro que essa técnica só funcionará em país onde redes sociais são abrangentemente utilizadas, especialmente pela faixa etária alvo. No caso todos os 3 países possuem a cultura de jovens utilizarem redes sociais, especialmente Facebook e Twitter, assim essas redes viram formas de medir público engajado.

Embora aqui tenhamos acesso a números e valores reais de seguidores e curtidores, os valores não incluem a parcela de clientes casuais que não usam as redes ou que não seguem as editoras. Também não nos dá números de visualizações por não-curtidores, logo esse número não representa um número real de consumidores. Por outro lado, a mesma coisa tende a acontecer em todos os países que utilizam essas redes, possibilitando mais uma vez comparações ilustrativas.

No Brasil podemos considerar os números de três editoras principais: JBC, NewPOP e Panini.

  • JBC: 60 mil curtidas no Facebook, 20 mil seguidores no Twitter.
  • NewPOP: 45 mil curtidas no Facebook, 5 mil seguidores no Twitter.
  • Panini: 235 mil curtidas no Facebook, 10 mil seguidores no Twitter do Planet Mangá.

Nos Estados Unidos podemos considerar: Viz Media (da Shueisha), Kodansha Comics (antiga Vertical), Seven Seas Entertainment e Yen  Press (da Kadokawa).

  • Viz Media: 305 mil curtidas no Facebook, 140 mil seguidores no Twitter.
  • Kodansha Comics: 10 mil curtidas no Facebook, 20 mil seguidores no Twitter.
  • Seven Seas: 5 mil curtidas no Facebook, 12 mil seguidores no Twitter.
  • Yen Press: 50 mil curtidas no Facebook, 25 mil seguidores no Twitter.

No Japão teremos também três gigantes: Kadokawa, Kodansha e Shueisha. Mas aqui a coisa complica um pouco, japoneses não são muito fãs de Facebook por prezarem mais suas anonimidades virtuais. Eles usam mais Twitter e Line, especialmente Line. Para piorar eles não centralizam suas postagem em comunidades da editora, cada revista, autor e obra tem uma conta diferente, tornando impossível se analisar qualquer coisa.

Mas para você ter uma ideia, as comunidades giram em torna de 3 mil usuários, a mais populares chegam a 20 mil e as maiores conseguem alcançar em torno de 150 mil, como o Twitter da Shounen Jump e o de Assassination Classroom. Valores baixíssimos se comparados às tiragens e vendas estimadas.

Eventos específicos

Outra forma de ter uma ideia de tamanho é analisando os eventos específicos de mangás do país e quantas pessoas são atraídas. Mais uma vez, isso apenas sugere valores das maiores cidades, mas pode ser uma boa forma de ilustrar o público.

Infelizmente para o nosso caso, isso não funciona já que o Brasil não possui eventos de mangás. Os eventos que temos são misturados com anime, cultura POP e cultura japonesa, impossibilitando qualquer tipo de estimativa. Nos EUA também temos muita mistura, apenas no Japão vamos encontrar eventos especializados para mangás e variantes.

Os eventos da empresas e palestras em outros locais também dificilmente servem de estimativa, já que acontecem de forma exclusiva, com assentos limitados, variando de 50 a 200 lugares.

Um tipo de evento que vale a pena comentar são os de premiação. Mais uma vez os brasileiros deixam muito a desejar, mais isso é algo mais fácil de ver nos EUA, França e Japão. Ver quantas pessoas engajaram e votaram é uma boa estimativa de mercado.

Conclusão

Importante ressaltar que nada disso vai te dar um número específico, mas juntando todas as informações que você tiver acesso, é possível ter uma ideia de grandezas. Se todos os dados de certo país são maiores que o de outro, você pode ter maior segurança nas informações que aquilo te passa.

E, acima de tudo, sempre mantenha em mente a realidade daquele mercado, por exemplo, você deve ter notado como a maioria das editoras americanas possuem uma comunidade muito pequenas de seguidores e curtidores, isso acontece porque nos EUA existem sites de informação (como o famoso Anime News Network) que oferece tudo num lugar só. Assim a maioria da clientela segue esses grandes núcleos de informações. A mesma coisa acontece no Japão, a maioria prefere acompanhar grandes sites de notícia como o Natallie.

No Brasil por outro lado, há uma enorme quantidade de “sites especializados”, mas que constantemente passam informações equivocadas, abrangem assuntos de mais e acabam deixando a desejar em ser completo. A maioria inclusive costuma pesar no lado das resenhas e polêmicas ou nos animes e grandes sucessos. E isso não é algo de agora, faz muitos anos que a coisa funciona nesses moldes, pegue qualquer site de longa data e note que o site não oferece todos os checklists das empresas, havendo vários buracos ao longo dos anos.

Essa falta de segurança faz o cliente ir atrás das informações direto na fonte, o que é algo bom para as empresas por um lado, mas ruim pois diminui suas chances de “roubar” a clientela da outra editora. Por exemplo, como a JBC pode fazer propaganda para os clientes da Panini que só vivem no Facebook da editora?

Se você quiser ter uma ideia mais abrangente de otakus, você pode ir atrás dos números de sites como esses:

  • Anime News Network: 560 mil no Facebook, 260 mil no Twitter.
  • Crunchyroll: 1,56 milhões no Facebook, 335 mil no Twitter.

E compará-los aos nossos:

  • Chuva de Nanquim: 45 mil no Facebook, 8 mil no Twitter.
  • Crunchyroll.pt: 35 mil no Facebook, 5 mil no Twitter.

Tendo isso em mente, o único dado usável de Facebook americano seria da Viz Media, que faz uma maior propaganda e engajamentos em suas comunidades. Twitter também é bem mais famoso nos EUA, isso fica claro pelos valores em relação aos brasileiros. No fundo, a Viz Media chegar a essas quantidades mesmo numa realidade em que as pessoas não vão atrás das editoras, mostra como o mercado deles é bem grande.

Mais uma vez, é importante lembrar que estamos tentando apenas ter uma ideia de grandezas, já que valores são impossíveis. 😉


E esse foi o Desmistificando de hoje, a coluna semanal, lançada nas quintas-feiras, sobre o mercado e mangás brasileiros e internacionais. Você pode ver todas as outras postagens anteriores desta coluna aqui. Se você tem sugestões ou comentários utilize o formulário abaixo, são sempre bem-vindos! 🙂

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11 thoughts on “Desmistificando: Tamanho dos mercados de mangás ”

  1. Eu chuto que as editoras também devam acompanhar ~secretamente~ os sites de leitura de scans, alguns deles disponibilizam número de views e tal, isso pode ajudar a ter uma noção do público de cada título, mas acaba caindo no mesmo caso das páginas e grupos do facebook, não é um número muito preciso por uma série de razões.

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    1. Embora isso não vá ajudar a definir nada do mercado, já que não sabemos quantos desse público de scan sequer compra mangá. Serviria com certeza para ver popularidade, assim como animes. Mas usar eles de parâmetro de venda e mercado é como assumir que todo cara que gostou do anime irá comprar o mangá daquilo. 🙂

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  2. Uma coisa que eu sempre me perguntei foi como que o mercado americano se tornou tão grande enquanto o brasileiro continua tão modesto. Ouvi dizer também que a quantidade de títulos lançados na Alemanha e França é imensa que chega a encher os olhos. Seria um sonho se o nosso mercado seguisse os mesmos parâmetros. Ótima matéria aliás!

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    1. Luna, é uma questão principalmente econômica. O Brasil pode ser grande geograficamente, tanto em espaço quanto em população, mas isso não reflete poder de compra. Cerca de 60% do Brasil vive em famílias que somado os integrantes ficam na faixa de um salário mínimo.
      Mangás e livros não são itens consumidos por pessoas assim, são artigos para a classe média-alta, para famílias que alcancem no mínimo 3 mil.
      Depois que você calcula quem tem condições de gastar com mangás e livros, você perceber que dos total, apenas uma parcela pequena pode arcar com esse tipo de entretenimento. Em outros países, a distribuição de renda é diferente, se tem uma faixa muito maior de classe média e uma muitíssimo menor de classe baixa, logo a porcentagem de possíveis consumidores é muito maior.

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    1. Na verdade, eles têm mais de um, mas apenas um é relativo à editora de mangás. A NewPOP também tem dois, a AnimePró é do Junior Fonseca. A Panini tem vários, assine Panini, Panini Comics.

      A gente considerou apenas a página oficial das editoras 🙂

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      1. Obrigado pela resposta Roses.Acho muito legal esse tipo de análise,o tamanho de uma marca nas redes sociais significa bastante da sua popularidade,um exemplo claro disso,na minha humilde opinião,é a Newpop,com tantas curtidas e estilos diferentes de mangas,chamou a atenção das outras editoras,resultado,estamos tendo mais lançamentos diferenciados no mercado.Parabéns pelo trabalho de vocês.

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    1. Ops, alguém escreveu alguns pedaços alguns meses atrás e esqueceu de atualizar… Hohoho

      ****Correção, conferi aqui e o resto eu atualizei, foi ou um lapso, tendo pulado ela, ou erro de digitação, obrigada!

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