Desmistificando: A Pseudo-Cultura Japonesa

Pseudo culturaOu como enganar toda uma geração…

Já falamos um pouco sobre isso no post sobre Honoríficos, mas vamos falar de novo!

Sabe todo esse conhecimento “otaku” que você tem? A grandíssima maioria é válido no mundo todo, excluindo o Japão. Sim, é uma “cultura japonesa” que vale em todo o Ocidente, mas que não bate com a realidade japonesa. A pseudo-cultura japonesa.

Mas como assim?! A verdade é que, na época que o mangá e anime despontaram no Ocidente, havia uma quantidade muito pequena de falantes de japonês, muitos eram descendentes e nunca realmente tiveram contato com o Japão. Foram essas pessoas, esses tradutores, que fizeram o intercâmbios de conhecimentos. Não é de surpreender que muita coisa simplesmente chegou errada ou imprecisa ou fora de lugar.

Pior ainda, tudo que chegava para nós era traduzido do inglês, absolutamente tudo. Logo todos esses erros foram massivamente transmitidos para os brasileiros e o mesmo ocorreu por todo o Ocidente.

Quando as coisas começaram a melhorar, quando passamos a ter nossos próprios tradutores, quando pessoas mais capacitadas e estudadas assumiram, já era tarde demais. Os erros criaram raízes profundas e ninguém realmente se “importava” em ser coerente com a cultura japonesa, o importante era criar um conhecimento que unisse e diferenciasse aquele nicho, que os tornasse únicos.

Para piorar mais, se por um lado passamos a ter pessoas mais qualificadas, a quantidade de tradutores amadores aumentou exponencialmente e passaram a traduzir “de fã para fã”, criando e estabelecendo ainda mais erros e absurdos que são perpetuados pelo mercado, que não se atreve a corrigir os leitores. (E como culpá-los? Já viu a quantidade de “fãs” reclamando de termos e nomes? Quantos não defendem que scanlators é melhor?)

O resultado disso tudo é uma cultura japonesa irreal, que nem sempre bate com a cultura existente no Japão. Em páginas da Wikipédia japonesa, por exemplo, você encontra avisos de que aquele termo “fora do Japão” pode significar outras coisas. Não é irônico que uma “cultura japonesa” só funcione e seja correta “fora do Japão”?! Uma cultura japonesa não-japonesa?!

Mas por que isso ainda ocorre tanto? O principal vilão de tudo isso é a distância entre as duas culturas. Não só os caracteres e língua totalmente diferente, a cultura, a ética e costumes dificultam o entendimento. Não podemos ignorar também a distância física, ir ao Japão ou encontrar um japonês de verdade não é trabalho fácil.

E essa é uma via de mão-dupla, a quantidade de absurdos sobre o Ocidente no Japão é ainda imensamente maior. Especialmente antes da internet, os japoneses só tinham conhecimento do exterior através de livros, às vezes muito mal traduzidos. É muito comum em mangás antigos aparecer explicações sobre animais, coisas e locais que não fazem o menor sentido. Ou caricaturas e visões até ofensivas do resto do mundo, como pode ser visto em várias obras do Tezuka.

Um exemplo disso é exatamente a visão de “gringo” dos japoneses. Quase todo americano nos mangás e anime são retratados como brancos, loiros dos olhos azuis (bem Brad Pitt ou Leonardo DiCaprio), geralmente usando óculos escuros e roupas de jeans, jaquetas e tatuagens, às vezes com motos e as cores da bandeira americana (branco, azul e vermelho).

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Que tipo de erros?

Ortografia

Ainda hoje várias palavras são escritas erradas. Não, não estou falando de aportuguesamento, adaptações ou de romanizações diferentes, mas de falta de noção de gramática japonesa que cria palavras erradas mesmo. Muitas das vezes vindos de “conhecimentos” totalmente deturpados, traduzidos de forma equivocada, como o “Arucard” na época do anime de Hellsing. Pois, segundo os tradutores, era esse o nome correto já que “japonês não tem L”. O fato de japonês também não ter o R e o D sem vogal foi ignorado. O que era “Alucard” ou “Arucaado”, recebeu um nome ocidental alternativo baseado apenas no achismo.

http://vignette1.wikia.nocookie.net/villains/images/5/52/Alucard_(Hellsing).png/revision/latest?cb=20150322001647

Este caso é ainda mais interessante quando identificamos que as pessoas “responsáveis” pelo Arucard foram as mesmas que traduziram o anime de Hellsing para inglês, espalhando essa baboseira para todas as versões em diante, a brasileira inclusa. O que exemplifica como muitos dos responsáveis por “trazer” conhecimento, por fazer o intercâmbio de informações, sabiam um básico falho da língua e foram eles quem moldaram o que sabemos de japonês e anime no Ocidente.

Diga-se de passagem, na verdade é mentira, japonês fala L, sim. Esse é mais um mito. O que ocorre no Japão, e também em outros países orientais, é que alguns “R” e “L” se equivalem naquela língua, são formas diferentes de se falar a mesma sílaba. Muitas vezes são fonemas que na verdade não temos em português e nossa mente interpreta como “L” ou “R”, que é o que conhecemos e conseguimos identificar.

Para ficar claro, é igual aos inúmeros “R” no Brasil, que podem ser falados de várias formas diferentes, mas todos equivalem à mesma sílaba. Não importa se é um R do interior paulista, o do nordeste, o do centro-oeste, etc, continua sendo a mesma palavra. Dessa forma, assim como é possível se falar “correr” de várias formas, para um japonês “prayer” (oração, reza), “player” (jogador) e “preyer” (predador) viram todos a mesma coisa: “pureyaa”, ou “color” (cor), “collar” (colar), “calar” e “cará” (peixe) que é “karaa”.

É por causa disso que coisas como “flango” aparecem, muitos orientais são incapazes de ouvir a diferença entre “frango” e “flango”. Assim como brasileiros têm imensa dificuldade em ouvir o som “Th” americano e constantemente falam como “T”, “F” ou até “Z”: birfiday ou birziday (birthday, dia do nascimento). O famoso “three” (três) que vira “tree” (árvore) é nossa marca registrada.

Tudo isso é especialmente importante quando falamos das gairaigos (palavras estrangeiras na língua japonesa), já que são reflexos de como um japonês escuta e interpreta aqueles sons estrangeiros. Alucard, por exemplo, é Arucaado; Love é Rabu; Vidro é Bidoru; Pão é Pan.

Por algum motivo, a comunidade de fãs achava mais “chique” tentar falar como um japonês falaria. É muito mais chique assistir um “dorama” que um drama ou novela. Mesmo que falem tudo errado ou criem versões que não batam com as japonesas.

O mesmo ocorre com os pobres chineses e coreanos. Não é incomum ocidental chamar de “dorama”, uma pronúncia japonesa, obras dessas nacionalidades. Se vai chamar de “dorama” o drama japonês, tá na hora de chamar de “deulama” o coreano!

***

Outro famoso é o “tankouhon” que já mostra outro tipo de erro ortográfico, que nascia da falta de conhecimentos gramaticais da língua, da tradução amadora de kanjis (caracteres japoneses). De fato, tankoubon (a forma correta) é a união de “tan”, “kou” e “hon”, mas que juntos sofrem mudanças fonéticas que transformam o “hon” em “bon”.

Kanjis lidos errados existem para todo lado, atualmente são mais raros, mas ainda existem. Um exemplo atual que conheço é a série “Yume no Shizuku Kin no Torikago”, que na internet aparece como “Yume no Shizuku Ougon no Torikago”, uma leitura errada de um dos kanjis. Outros exemplos são a “Tetsusaiga”, uma leitura errada de “Tessaiga” (a espada de Inu-Yasha) e o polêmico “tokuitsuban”, na capa do Rurouni Kenshin versão do autor da JBC, grafia errada de “tokuhitsuban”.

***

Outro erro absolutamente hilário são os kanjis escritos errados ou trocados, usados em camisas, imagens, tatuagens, etc, ganhando conotações absurdas.

Essa “mania” ocidental é tão, mas tão comum que é vítima constante de gozação. Assim como você acha na internet placas e coisas mal traduzidas por eles, em japonês há várias palhaçadas nossas, desde camisas com frases absurdas até tatuagens vergonhosas.

Gramática

Ignorando os muitos casos de gente tentando falar japonês e falhando bravamente, muitos fãs aprendem “pedaços” e saem usando sem realmente compreender do que se trata. Um exemplo típico são os honoríficos, sobre os quais já falamos anteriormente.

Mas existem vários outros exemplos, como o caso do “hai” (sim, formal) e iee” (não, formal), do “watashi” e “anata” (variações de eu e você) que são retirados do contexto e gramática e usados como traduções literais das palavras ocidentais. Você deve lembrar de vários conhecidos otakus dizendo “hai” por aí sem ter a menor noção de como usar de forma apropriada.

E isso acontece também nas muitas “aulas” de japonês, onde o japonês é convenientemente alterado para encaixar na gramática e lógica ocidental. Ou nos muitos guias de como “escrever o seu nome em japonês” que são um monte de receitas que no fundo tenta simplificar e tornar fácil algo muito mais complexo. Usando essas receitas, por exemplo, Love seria “Robe”, quando de fato é “Rabu”.

É difícil para muitas pessoas entenderem que não podemos utilizar as mesmas “técnicas” de tradução e ensinamento de línguas como inglês e espanhol no japonês. As línguas que mais temos contato (inglês, francês, espanhol) são línguas parecidíssimas com a nossa. E não só em vocabulário, mas em gramática, lógica e estrutura. A tal ponto que traduzir literalmente, ou seja, apenas trocando vocabulários um pelos outros dá muito certo e faz todo o sentido (com exceções, é claro).

Por exemplo: “the book is on the table” vira “o livro está sobre a mesa” apenas com a troca de vocabulário, fazendo muitíssimo sentido e ainda até gramaticalmente correto. Já “hon wa teeburu no ue ni arimasu” ficaria algo horrível como “Livro – mesa de topo em existe”, nada faz sentido, a ordem está incorreta, a estrutura das locuções e frases é diferente, a lógica de ênfase, falta de artigos, verbo diferente, etc.

Não é uma questão de ser “difícil”, é uma questão de ser totalmente diferente em muitos aspectos o que torna a tradução literal impossível. É preciso entender que japonês não tem uma palavra “sim” como nós, ou um “você/tu”, ou um “eu”, etc; “hai” é muito mais que apenas “sim”. Inclusive, às vezes a tradução mais precisa de “hai” para o português é “não”, o contexto é essencial!

Ou seja, não dá para fazer um simples jogo de equivalência e ignorar toda a gramática e contexto, já é um problema fazer isso nas línguas próximas, imagina fazer isso em uma absolutamente diferente?

É extamente essa tentativa ingênua de simplificar que causa todos os erros absurdos envolvendo a gramática, ao ponto de certas pessoas tentarem falar japonês ou introduzir pedaços no diálogo e acabar falando alguma outra coisa que definitivamente não é japonês.

Definições e Significados

Um dos erros mais irritantes são os erros de definição. Ocidentais elegem certas palavras e dão significados que não batem com a realidade japonesa. Exemplos? São tantos!

Mangá e Anime

Melhores exemplos que existem, a ideia de que mangá é o nome dos quadrinhos no estilo japonês e anime as animações no estilo japonês.

No Japão mangá é sinônimo de quadrinho, eles chamam qualquer quadrinho de mangá e chamam qualquer “mangá” (no sentido ocidental) de “comics” (quadrinho em inglês). Se eu for agora na Wikipédia japonesa e procurar por Garfield (sim, aquelas tirinhas do gatinho gordo e laranja que odeia as segundas-feiras) aparece: “ガーフィールド (漫画)“, romanizando: “Garfield (mangá)”. O mesmo vale para anime, que nada mais é que uma forma reduzida de “animation” e vale para, bem, qualquer animação, oras!!

Da mesma forma que é tudo mangá, é tudo comics também. Japoneses chamam suas obras de “comic” (コミック) ou “cartoon” e seus “mangakás” de “cartoonist” (cartunista). Veja um exemplo abaixo do “Mangá Taishou” (prêmio japa) e a associação de mangakás:

https://i2.wp.com/jca.j-comi.jp/img/JCA_Flag_edited-1.jpg    news_xlarge_mangataisho_logo2015

Gêneros e demografias

O mundo dos gêneros é outro que sofre de completa falta de contato com o Japão, a maioria ou tem uma conotação errada ou antiga.

Shoujo ai, por exemplo, é um termo antigo, relacionado à pedofilia e o “lolicon”. Remete ao interesse por garotas, sexual ou apenas platônico, e não é sinônimo de “Yuri”. Embora ambos possam ser grafados como GirlsLove. Shonen ai segue a mesma linha de raciocínio.

Yaoi é outro caso engraçado, inicialmente um sinônimo das paródias criadas por fãs, no Ocidente virou nome de gênero. No Japão Yaoi e BoysLove são coisas diferentes, Yaoi são os doujinshis (publicações amadoras/sátiras) de conteúdo sexual, enquanto BoysLove é o gênero em si das publicações profissionais.

Hentai que é usado apenas no Ocidente como gênero, por lá é chamado de “seijin” (adulto), ou ainda “seijinmuke”, “seinen” (se lê igual, mas são kanjis diferentes do seinen que você conhece), “adult” (em inglês mesmo), “18kin” ou “ero”. A página da Wikipédia japonesa para “hentai” é particularmente engraçada e afirma que existem 46 línguas com o termo hentai como gênero na Wiki, que não inclui o japonês.

Ecchi é outro deturpado, no Japão ecchi (aitch, H) é usado para denotar perversão ou obscenidade. Não se trata de um gênero. Uma tradução interessante para ecchi seria safado e safadeza, alguém pode te perguntar se quer fazer ecchi ou acusá-lo de ser ecchi.

Existem mais inconsistências e diferenças em outros gêneros também, mas esses aí são os casos absurdos.

Tankoubon

No Ocidente um “volume de mangá”, no Japão é um tipo de livro e não é mais usado para se descrever o volume de quadrinhos, embora algumas pessoas ainda usem o termo casualmente. As editoras japonesas e lojas atualmente usam o termo “comic” para falar dos volumes, desvinculando do termo “hon” (livro).

Katana

Assim como aconteceu com anime e mangá, que foram reduzidos a significados específicos, o mesmo ocorreu com diversos outros.

Um exemplo típico é a katana, que no Ocidente virou um tipo de espada japonesa, enquanto no Oriente é a palavra “espada de uma lâmina”, incluso sabre, kukri, shamshir, shotel, talwar, urumi, yatagan, estilete, facão e faca – sim, você possui uma porção de katanas na sua casa.

Curiosamente, certas localidades chamam os facões típicos brasileiros como catana, mesma lógica anterior, mas para um significado diferente.

***

Na verdade, pouquíssimas palavras são fieis aos seus significados originais exatos, todas elas acabam variando um pouco aqui e ali, o que é normal. Outras ganham vida própria e entram para a língua, o que também é normal. O que é estranho é usar termos errados para falar de coisas na outra cultura.

Não seria esquisito se o que chamamos de sertanejo no Brasil fosse chamado de pagode no resto do mundo? Já pensou a confusão que seria? Pois é isso que acontece com as demografias japonesas ocidentais – sim, japonesas ocidentais.


Desmistificando é uma coluna semanal, lançada nas quintas-feiras, sobre o mercado e mangás brasileiros e internacionais. Você pode ver todas as outras postagens anteriores desta coluna aqui. Sugestões e comentários também são sempre bem-vindos! 🙂


Se você estranhou o “BoysLove” e “GirlsLove” escrito junto, aqui vai uma pequena explicação: no Japão não existe espaço entre as palavras, nem plural. É impossível saber se veio de “Boy’s Love” (amor de menino), “Boys’ Love” (amor de meninos) ou “Boys Love” (amor meninesco/meninil). Assim neste tópico sobre cultura japonesa, preferi deixar a grafia mais neutra japonesa. O mesmo vale para GirlsLove.

Sobre Roses

“But he who dares not grasp the thorn Should never crave the rose.” ― Anne Brontë
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8 respostas para Desmistificando: A Pseudo-Cultura Japonesa

  1. kaikalash disse:

    Até parece que uma língua deve ser fixa eternamente. línguas mudam segundo o seu contexto, cada língua falada/escrita, por mais próxima, ou mesmo equivalente que seja, ainda pode manter características e conotações próprias. o estranho seria se tudo fosse perfeitamente “correto” e “adequado”. acho mais do que normal toda essa mutação constante entre culturas. Uma cultura como identidade também é uma amalgama de aglutinações aleatórias, essa é a mágica da diversidade e da convenção que estão sempre em movimento.

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    • Roses disse:

      Não sei onde foi escrito que deveria ser fixa, a crítica é como a cultura japonesa ocidental não é de fato cultura japonesa.

      Katana aqui ser uma coisa e lá outra é perfeitamente normal, empréstimos de vocabulários dão nisso mesmo. Mas estamos falando de utilização de termos para falar da cultura do outro e dizer que eles chamam daquela forma.

      Seria correto um americano descrevendo que Carnaval é um grupo de dançarinos cantando pagode em celebração da colheita? Exageros a parte, mas há coisas desse tipo na nossa visão de JP, são mitos, fantasia e absurdos que não representam a outra cultura de fato.

      Não é uma questão de mutabilidade de língua, mas do acesso a informações e como no Ocidente aceitou-se qualquer coisa como verdade, especialmente pela falta de formas de conferir você mesmo. Igual aqueles “você sabia que japonês escreve ao contrário” que você ouve, é falta de informação e completa falta de interesse em veracidade.

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      • kaikalash disse:

        De fato não é dito que uma língua é fixa, mas pode ser conotado que uma língua deve ser respeitada segundo conceitos fixos de origem, onde na origem ela não significa o que ela significa em outras localidades. o enfase que quero dar é que mesmo na sua localidade original ela é uma convenção, não uma verdade, e muda de acordo com o tempo e as relações humanas. qualquer povo esterno, mesmo uma tribo periférica, vai ter dificuldades em precisão comunicativa com vizinhos com os quais não vivencia e vive lado a lado e diariamente, nisso é normal que interpretações distorcidas sejam feitas para adequar o entendimento do mundo alheio segundo parâmetros próprios. até ai tudo bem, mas definir que cultura japonesa é algo isoladamente japonês é um problema de construção histórica. o que é japonês tem origem em diversos povos orientais e em diversas tradições temporais de povos que se relacionaram. a língua dita japonesa é uma língua múltipla, de constituição e influência diversa. de japonês ela só tem a acepção moderna convencional para conotar certa unidade. unidade que hoje em dia se mescla e muta junto ao inglês e outros estrangeirismos. como bem exposto no texto, os japoneses fazem o mesmo, do modo que podem para interpretar as diversidades que batem as suas portas. uma cultura sendo uma amalgama de subvivencias e misturas históricas é uma cultura de identidade flutuante, que em parte se define pela maior preponderância de certas características tomadas como nativas. as interpretações locais para as palavras locais são adequadas e refletem a tradição local. se caso algo outro se insira na linguagem, esse outro é uma tradição local de entendimento do externo, tornando o externo um reflexo das potencialidades de compreensão internas. isso acarreta que a interpretação interna é uma variação correta e valida, mesmo que falsa, uma interpretação errada é uma interpretação valida. a pergunta que se faz é se a interpretação correta é, para além de valida, verdadeira e, de certo modo, absoluta, fixa, referencial. esse é o meu ponto. essa verdade própria de certo interior não é universal, ela é uma construção histórico social em movimento. no seu nicho próximo ela é uma coisa, no seu nicho mais distante ela é uma outra, mas ela não é nem uma nem a outra, ela é a potencialidade de transformação, a identidade coletiva das relações. obviamente cada nicho vai ter o seu próprio modo de usar a linguagem, e para uma comunicação mais precisa e dinâmica falar a mesma língua com a maior proximidade de significado é o mais frutífero. mas isso não quer dizer que possamos considerar a identidade de uma língua como referencia verdadeira para além das suas fronteiras de nicho. é valido interpretar “errado” qualquer cultura que se queira interpretar, tanto que a comunicação local faça sentido no local. o problema das interpretações erradas é que para se pressupor o erro tem de se pressupor o certo. o certo é uma construção cooriginada de um processo de mudanças e adaptações vivenciadas. esse certo não é uma realidade, ele é uma pratica. na pratica a unica consequência de se comunicar errado é que se recria internamente o sentido que não se capta naturalmente por culpa da distancia. querer forçar essa sentido como universal é certo é o problema que vai levar ao conflito e a aniquilação das diferenças. o problema em se entender errado é que o certo será demandado. uma demanda é uma forma de fixação e regra. a cultura japonesa é uma nevoa mais ou menos definida e nomeada como japonesa, a partir desse certo solidificado criamos, como humanos, algo a defender, a defesa um modo de alienar a ausência de identidade original daquilo que defendemos.
        no fim, por mais diversas que sejam as palavras e o entendimento entre as partes, o problema não esta no erro, mas na pressuposição de um correto. qualquer um define e aceita o que quiser como verdade, felizmente ou infelizmente, isso ocasiona toda essa bagunça na comunicação e entendimento entre as partes.

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        • Roses disse:

          Não discordo, inclusive não lembro de ter dito que isso é errado e não deveria ser feito no texto. Se eu disse “uso errado” foi no sentido de um uso que não equivale a nenhum uso original e suas variações, não necessariamente que seja certo ou verdade, mas que é proveniente de um erro, de um equívoco.

          Mas de fato, desde os primórdios, pseudo-culturas são regras, ainda mais considerando que levava anos para informações passarem de um lado pro outro, fora as velhas consequências da brincadeira do telefone sem-fio. Japão mesmo veio disso, a palavra original era Nihon e depois de muitas passagens virou o que temos hoje. Em nenhum momento isso foi criticado.

          A crítica principal foi para erros que numa época dessas não podem ser justificados da mesma forma. Erros de gramática ao se ensinar japonês são erros mesmo, pois você parte do princípio que está ensinando a língua japonesa e não uma língua fantasiosa. Se essa língua ensinada não bate com nenhuma das variações dentro dessa névoa japonesa, você perde a validade de chamar de língua japonesa. Vira propaganda enganosa, você parte do princípio que aquilo ensinado deve ser de alguma forma real e existente no outro país.

          Da mesma forma, a ideia foi mostrar que o que achamos que são termos japoneses ou uma cultura existente no Japão de fato é uma cultura nossa adaptada da deles. Com o advento da internet, esse tipo de dualidade entre a pseudo-cultura e a nuvem de cultura existente causa confusões e “absurdos”. O texto em momento algum pregou que deveríamos reaprender tudo ou para de usar isso é adotar apenas coisas válidas no Japão. Mas sim expor esse lado, desconhecido por muitos, sobre o quão aquém a cultura que ele conhece pode ser do original.

          A ideia inclusive é até conscientizar que não vale a pela ficar se estressando em brigas de se é X ou Y pois vários desses termos nem são “reais”. É como defender se um Crocodilo seria da família dos Dragões ou Basiliscos.

          E de fato isso acontece muito, vá em comunidades “otakus” e veja o pessoal se quebrando e discutindo se é X ou Y, quando a verdade é que sendo esse termo totalmente “fantasioso”, pode ser ambos e nenhum deles de acordo com a interpretação pessoal ou daquele nicho.

          Acho que vocês estão tão acostumados a ver pessoas fixadas no “purismo” como o rapaz embaixo citou, que interpretaram meu texto dessa forma. Mas a ideia principal é a ironia e a busca por fontes antes de glorificar um termo como certeza absoluta.

          Há como discutir também a utilidade de se usar termos “artificiais” para classificar os mangás quando eles não batem com língua nenhuma. É claro que alguns já estão enraizados, mas se cria novos todos os dias. 🙂

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  2. STX disse:

    Para 99% da população brasileira que jamais irá por seus pés em solo japones ou saberá ler em japones, ficar se preocupando com “purismos” de determinadas culturas é procurar pêlo em ovo. Tipo o fato de paulistas comerem feijão carioquinha que não tem nada a ver com o rio de janeiro, mas com um tipo de porco. Saber que o nome vem de um porco e não de uma região não impede em nada comprar e saborear o feijão, importa é saber que o tipo desejado é carioquinha é pronto. O mesmo para detalhes como demografias. Se aqui não é igual ao do japones o que importa é que pra nós funciona e pronto. Purismo só vale a pena pra quem realmente tem chance de ir morar no japão.

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    • Roses disse:

      Não vejo como purismo se encaixa neste tópico. Purismo: Preservação excessiva de uma tradição linguística, que resulta na rejeição de toda mudança gramatical, além de qualquer influência estrangeira. Purismo é quando se rejeita gírias, informalidade e dialetos (ou renovações) em prol de uma língua mais “pura”.
      Cometer erros de gramática, semântica e ortografia durante uma tradução ou romanização não tem nada a ver com isso, mas com erro de tradução.

      De fato as coisas acima não impactam realmente a vida de um leitor “normal”, nem pouco interfere na qualidade de um título. O caso é promover a conscientização daqueles que usam esses meios para se “ajaponezar”, ignorantes de que são informações que falham muito.

      Na verdade, a moral da história é que você não devia ser muito xiita em usar os termos japoneses pois a maioria deles NÃO são japoneses de fato. Já vi muita briguinha besta de gente discutindo fervorosamente se é um ou outro, inventando termos como Dark Shounen e Steam Shoujo, crentes de que isso é japonês.

      A ideia do texto é expor para quem não sabe como todos esses termos e coisas japonesas são muito menos japonesas do que eles imaginam. De fato Hentai é um termo americano usando uma palavra japonesa. 🙂

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  3. anon disse:

    Muito legal este post, um assunto bem interessante e que deveria ser mais discutido!
    Os honoríficos e certas palavras aleatórias no meio das frases como “senpai” e “nee-san” em traduções nacionais por exemplo, é algo que realmente não entendo como ainda existe e como ainda pode ter gente que as defende! Isso só quebra o ritmo da leitura e cria um ar artificial…

    Acho que algumas coisas são mais “inofensivas”, como certos termos que acabamos inventando ou modificando (eu não fazia ideia de que “hentai” não era o nome do gênero por lá!), mas o importante é tentar não criar uma visão estereotipada do Japão, senão acabamos parecendo o Ken sama: http://i.imgur.com/YhvtBOW.png

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