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Desmistificando: E se o Crunchyroll traduzisse mangá para português?

cr manga

O que poderíamos esperar dessa possibilidade?

Desde o lançamento do Crunchyroll Manga, serviço que lança capítulos logo após o Japão, similar ao serviço de streaming de animê, representantes da empresa diziam ter interesse em traduzir os mangás também para o português (atualmente é apenas para o inglês).

Recentemente a empresa se  pronunciou, dizendo que:

A maioria dos mangás estão licenciados para o mundo todo, mas ainda precisamos trabalhar nos direitos de tradução.  Não temos previsão de quando isso estará pronto, mas  sabemos que será num futuro próximo, então aguardem!!

Um pronunciamento como esse nos faz pensar: Que tipo de consequência algo assim traria para o nosso mercado e leitores de mangás? Como seria o Crunchy em português?

Com isso em mente analisamos aqui algumas das consequências e particularidades do serviço, tentando identificar possíveis problemas e de uma forma geral começar uma discussão na tentativa de responder a pergunta anterior.


Crunchyroll, licenças e outras editoras


Conflito entre licenças?

A primeira coisa que alguém deve imaginar é o que aconteceria com os mangás que já são licenciados no Brasil. Atualmente o Crunchyroll tem: The Seven Deadly Sins, Fairy Tail, UQ Holder!, Ataque dos Titãs, Orange, Arakawa Under the Bridge, Ajin, Fort of Apocalypse e Lúcifer e o Martelo.

shingeki_no_kyojin_mikasa_ackerman_png_by_bloomsama-d6dotulUma resposta “simples” poderia ser que essas obras não seriam traduzidas por eles. Mas nos Estados Unidos acontece a mesma coisa, como isso é resolvido por lá?

No caso de mangás sendo lançados na forma física em inglês, o Crunchyroll apenas possui em seu catálogo os capítulos mais recentes, sendo que vários são retirados após seu lançamento no país. Por exemplo, em Ataque dos Titãs, a empresa disponibiliza a partir do capítulo 58, que é o último capítulo do volume 14, o último lançado nos Estados Unidos é o 18. Anteriormente a editora tinha desde o capítulo 50. 

Como exatamente funciona isso é um mistério, as editoras e o Crunchy não divulgam como é o contrato entre eles. Mas uma coisa é clara: um fica com o direito de distribuição online e o outro com a distribuição física. Também é comum usarem o mesmo padrão de edição e tradutores, o que sugere que exista uma complexidade grande aí no meio.

A questão é: será que as editoras brasileiras estariam interessadas nisso? Estariam elas preparadas para algo assim? E quando o Crunchy passa a trabalhar com um mangá e a editora licencia? Seria tudo retraduzido? Haveria a parceria? Ou isso por si só desestimularia que aquela obra fosse trazida ao Brasil?  Como nunca tivemos nada parecido, fica difícil de saber, mas lá fora parece estar dando certo. Quem sabe aqui também não possa funcionar?

***

 Crunchyroll x Distribuição Digital

É muito importante ressaltarmos que embora o Crunchyroll seja de fato uma distribuição digital, ele é mais que isso. É uma publicação simultânea dos capítulos de revista via distribuição digital, apelidada de SimulPub. (Vale a pena comentar que às vezes eles trazem uma série completa ou vários volumes numa tacada só, para então começar um SimulPub.)

É muito diferente de uma plataforma como a Social Comics ou a Henshin Drive (até onde foi divulgado), em que os volumes são traduzidos e distribuídos digitalmente. Não que essas plataformas não possam um dia vir a praticar ambos.

***

Inibidor de lançamentos?

É uma verdade indiscutível que o mercado americano é muito maior que o brasileiro, ninguém oferece números, mas qualquer comparação de comunidades, sites e tiragens que são ocasionalmente informadas mostra uma diferença bem expressiva.

Nesse mercado muito maior a competição simultânea de duas empresas e distribuições diferentes não parece inibir os lançamentos. Mas, será que seria o mesmo caso no Brasil?

The-Seven-Deadly-Sins-Characters-670x563Digamos que o Crunchy traduzisse um certo mangá e ele fosse acompanhado e lido por uma certa quantidade de pessoas. Agora consideremos que esse público estaria numa margem aceitável de consumidores para tornar uma publicação física viável. Quantas dessas pessoas comprariam a versão física desse mangá que já leram? A comunidade desses leitores da publicação digital é a mesma que das publicações físicas? Seriam consumidores totalmente diferentes? Teriam os dois os mesmos gostos?

Caso as respostas dessas perguntas sejam de que são a mesma comunidade, duas distribuições desconexas dividiria as vendas e inibiria os lançamentos das obras que já tivessem sido lançadas pelo Crunchyroll. Por outro lado, se forem totalmente diferentes, o sucesso de um meio não garante o de outro.

Veja que é uma situação diferente da proposta da JBC e seu Henshin Drive, como é uma mesma empresa, transformar uma edição digital, que já pagou os custos de tradução, adaptação e edição, numa edição física é bem mais fácil e barato. A edição física custa menos esforço, já que todo o conteúdo está pronto. Fora que a JBC tem acesso direto aos consumidores digitais e pode fazer propagandas e divulgações diretamente para essa comunidade que lê o digital.

A versão do Crunchyroll por outro lado, mesmo que fosse usado o mesmo material, não pode simplesmente ser encadernada, já que os capítulos e organização das páginas entre as revistas e volumes são diferentes, o que causaria uma mão de obra extra de tradutores, revisores e editores.

Quer dizer, até poderia ser usado, mas você, como consumidor, gostaria de ter essa versão defasada em mãos?


O mangá do Crunchyroll


Diferença de versões

Muita gente não sabe, mas existem várias diferenças entre o que é publicado na revista e o que é publicado nos volumes, é claro que isso vai depender de cada autor, periodicidade e editora. Por isso mesmo que não é incomum os autores tirarem “folgas” antes dos lançamentos dos volumes, exatamente para trabalharem neles.

E que diferenças são essas? Primeiro temos que entender que os capítulos têm prazos para ficarem prontos, logo uma semana ruim dá fruto a um capítulo com “coisas sacrificadas”. Que tipo de coisa? Cenários não desenhados, partes mal pensadas ou desenhadas, erros, etc. Tudo isso é corrigido na versão final para volume, pedaços são refeitos, redesenhados, coisas reescritas ou corrigidas, dentre outras alterações devido à má recepção do público, alguns até refazem pedaços enormes e inserem páginas e pedaços inteiros, etc. Se por um lado alguns autores não fazem quase nada, outros você sente que está lendo uma história completamente nova.

No Crunchyroll atualmente, mesmo que esses capítulos sejam mudados no volume físico, eles não são alterados no conteúdo do site. O mesmo acontece com animês, que podem também ser mudados e corrigidos quando lançados em DVD ou Blu-Ray. Esse é com certeza um dos único pontos negativos da plataforma.

***

Qualidade das adaptações

Inicialmente eu havia feito um texto com todos os problemas que achei, mas foram tantos e em um nível tão absurdo que separei e falarei extensamente em outro post.

O que você precisa ter em mente é que o objetivo do Crunchyroll é lançar o mais rápido possível, o que significa que a quantidade de envolvidos é mínima e há toda uma correria para lançar. Isso causa uma porção de erros de todos os tipos, desde erros de tradução e revisão, até erros de colocação, balões não-traduzidos, páginas com defeito, reconstruções de assombrar e traumatizar as pobres crianças.

De fato, a qualidade é muito duvidosa, idealmente o fato de serem profissionais tornaria a qualidade superior à dos scanlators, mas na prática a falta de revisores e de cuidado torna o trabalho tão amador quanto os ditos scanlators de maior qualidade e definitivamente muito inferior aos das editoras.

O pior de tudo é que não há uma forma fácil de indicar erros ao site (como um botão de “reportar erro”), você é obrigado a escrever no fórum, que não é uma garantia de ser lido. Além disso, os capítulos feitos na pressa e com erros nunca são corrigidos, começando a ler agora uma série de 100 capítulos, você encontrará erros do 1 ao 100, mesmo eles tendo tido anos para corrigir.

A qualidade é tão largada que eu diria que vale mais como uma oportunidade para conhecer a obra, como uma amostra, mas se você quer ler algo sério e com qualidade, passe longe, corra, sério.

Diga-se de passagem, esses erros também acontecem em animês o tempo todo, como personagens mudando de nome de um capítulo para outro, falas sem cabeça, erros de revisão, mas no caso dos animês eles parecem corrigir. Na verdade o fato da legenda ser um arquivo à parte permite que em segundos alguém corrija o pedaço em questão ou confira o original, o mesmo não acontece nos mangás, já que são imagens.

Para corrigir o mangá, o indivíduo precisa do arquivo daquela página editado, dos programas (confesso que não faço ideia do que eles usam, provavelmente Adobe, como Photoshop e InDesign), das fontes tipográficas, das páginas originais em japonês (para conferir se o erro procede e fazer as devidas correções), etc. Depois de tudo isso ainda tem que substituir a página com erro no site, que só eles sabem os problemas e dificuldades que isso poderia causar.

Seja qual for o motivo, o resultado final são centenas de erros espalhadas pelas séries. Algumas com quase nenhum, outras com tantos que não tem como não se sentir frustrado.

***

Plataforma e leitura

A plataforma de leitura do Crunchy deixa bastante a desejar, não são poucos que reclamam de não conseguir acessar via os muitos tipos de aparelhos e sistemas. Mas isso é algo que eles parecem estar investindo.

Nos mangás via desktop o caso mais irritante é quando você tenta ler vários capítulos um atrás do outro, especialmente os com capítulos curtos. A cada capítulo você deve carregar a página toda de novo e voltar a selecionar, por exemplo, tela cheia. É um trabalho cansativo e frustrante que não acontece nos sites de leitura online legais e ilegais, por exemplo.

Ao ponto de que mesmo pagando o Crunchyroll, confesso que perdi a paciência e fui ler os capítulos em um site de leitura online ilegal que muito safadamente roubou o conteúdo do site e disponibilizou, mas numa plataforma muito melhor de usar.

Até o momento eu ainda não tive a chance de testar o novo leitor (apenas certos usuários têm acesso), mas espero que tenha melhorado e muito, tá precisando.

Cansada dessa vida de leitor online no PC, decidi arriscar mobile, no ISO o leitor é muuuuuuito melhor, mas ainda assim cheio de bugs irritantes e coisas que deixam igualmente muito a desejar, como o fato de não ser possível passar de capítulo quando se está lendo na horizontal, ou como na vertical a visualização das páginas duplas é bugada e fácil de pular sem perceber, ou ainda como há capítulos que não abrem e como não há um sistema de aviso de novos capítulos… São tantos problemas…

Não tive saco de testar também no Android, mas pelos comentários no site e reviews na loja do Android não é livre de defeitos.


Conclusão


Há muitas boas perguntas a serem respondidas e talvez muitas outras questões a serem levantadas. E com certeza muita melhora para ser feita.

No fundo o Crunchyroll não parece de forma alguma como uma boa alternativa para as editoras do país, mas uma alternativa para os scanlators (que em sua grande maioria fazem um trabalho amador e cheio de erros por razões óbvias).

Os fãs mais chatos ou exigentes passariam muita raiva com a plataforma. Ler casualmente e não ter um ou outro balão traduzido já é chato, imagina o fã xiita que quer ler e se agraciar com cada milímetro da obra? Os erros seriam sacrilégios.

Pessoalmente, a promessa do Henshin Drive (apesar das birras com a editora) me parece muito mais promissora que a versão brasileira do Crunchy. Aguardo ansiosa pelo desenrolar dessa plataforma.

O que você acha leitor? O Crunchyroll mangá daria certo no Brasil? Você usaria o serviço? A qualidade a desejar é um problema?


Desmistificando é uma coluna semanal, lançada nas quintas-feiras, sobre o mercado e mangás brasileiros e internacionais. Você pode ver todas as outras postagens anteriores desta coluna aqui. Sugestões e comentários também são sempre bem-vindos! 🙂

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9 thoughts on “Desmistificando: E se o Crunchyroll traduzisse mangá para português?”

  1. “…JBC e seu Henshin Drive, como é uma mesma empresa, transformar uma edição digital, que já pagou os custos de tradução, adaptação e edição, numa edição física é bem mais fácil e barato. A edição física custa menos esforço, já que todo o conteúdo está pronto…”

    Essa seria a logica, mas depois de refazerem os textos de All you need is kill e deixarem um erro na versão BIG deles, eu não acredito muito nessa possibilidade deles reaproveitarem o que ja tem pronto.

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    1. Eles reaproveitam, sim, se você comparar milimetricamente as falar você vê que é igual, e isso é impossível de se fazer ao acaso.

      O caso ali é que alguém teve que transformar dois arquivos em um só, ou seja, rolou manipulação. E durante a manipulação alguém fez um besteira e pressionou uma letra num lugar que não devia, por exemplo. Como era um relançamento, ninguém deve ter relido ou revisado e passou.

      É muito parecido como erro da Panini que tinha uma url de YouTube no meio do mangá. Você nunca copiou ou clicou um atalho no lugar errado? Imagino eu que o cara foi copiar uma url para, por exemplo, mandar para um amigo, e sem querer acabou copiando no mangá. Provavelmente foi bem na finalização e não haviam mais revisões após a manipulação dele.

      Se a última pessoa que mexe e manipula faz cagada, a cagada passa. E como esse cara é “humano”, existe sim a possibilidade dele fazer cagada.

      Voltando no caso da JBC, em vídeos e tal aparece os programas que eles usam, aquilo parece muito, muito mesmo, o Adobe. Nos programas da Adobe você tem comandos bem complexos que incluem letras e várias outras teclas de comando. Imagine se é o cara foi fazer um comando de salvar (algo simples, como ctrl+S) e escorregou na hora de clicar o Ctrl. Agora imagina que a última coisa que ele tinha selecionado era uma caixa de texto. Isso teria escrito um S. Mas essas pessoa pode muito bem simplesmente voltar os olhos pro teclado, achar o Ctrl e fazer o combo novamente, completamente ignorante de que o S foi inserido no balão.

      Esse é um exemplo idiota, no caso foi um v, o famoso ctrl+v, mais que isso, confirmei aqui V também está no atalho para seleciona a ferramenta “mover”, para mudar detalhes na ferramenta pincel e ferramenta “filtro” e atalho de “luz vívida”.

      É claro que são só suposições, mas muito mais plausível do que a ideia da editora refazer um mangá que acabou de fazer e deixar praticamente idêntico. Não só por estar idêntico, menos um balão, como pelo gasto absurdo de tempo e recurso para refazer desnecessariamente quando é certeza que os programas fazem a união de documentos. (Pesquisei.)

      Após unir os dois o cara teria que arrumar, por exemplo, a numeração das páginas, tirar as páginas iniciais repetidas, como as páginas de crédito. O que mais? É esse cara que pode ter dado uma clicada idiota num V é feito a merda.

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  2. Roses, existe mais um problema que você não mencionou nessa questão da vinda do Crunchy.

    “…Mas uma coisa é clara: um fica com o direito de distribuição online e o outro com a distribuição física.”

    Como você disse, a licença digital de um título difere da física, correto? Nesse caso, como a Crunchy poderia licenciar os títulos da JBC? Não poderia, uma vez que a editora também teria a licença digital para tal título, devido ao Henshin Drive. Então podemos esperar que venham apenas séries da Panini (supondo que haja alguma conformidade nisso) ou aquelas que não são licenciadas pela JBC. Teríamos então um cenário de concorrência entre as duas, não acha?

    Claro que ainda é muito cedo para supormos o modo de operação do Henshin Drive, ainda sim, me parece que haverá essa questão a ser esclarecida no futuro.

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    1. Você tem que pagar para ter os dois, nenhuma editora paga a mais só para ter.
      Em todo caso, obras que a JBC pagar é dela, assim como o crunchyroll e o Netflix tem animes diferentes.

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