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ANM: A indústria de animação japonesa e a sua influência no mercado brasileiro de mangás

capaanimesDesenhos animados que regem o que consumimos…

Como vocês sabem, no Japão há uma forte indústria de animação com produções e mais produções que são exibidas na televisão, no cinema, além de obras exclusivas para vendas em home-vídeo, os chamados OVA. akiraMuitos dos mangás que você já leu ou lê atualmente provavelmente já foram adaptados para animê e transmitidos por meio de um desses veículos.

Akira, o futuro lançamento da editora JBC, por exemplo, tornou-se famoso no mundo devido ao seu filme de animação produzido em 1988, sendo conhecido até mesmo entre os leitores de comics. A mesma lógica vale para Naruto, cujo estopim do sucesso mundial foi a animação iniciada em 2002. Além deles, temos Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e muitos outros exemplos.

E sucessos como esses se repetem a cada ano ou a cada três meses, período em que se inicia uma nova temporada de animês. E essas temporadas acabam sendo muito importantes para nós que consumimos mangás no Brasil. Por quê? Veremos agora…

Temporadas de animês

animechart
Exemplo de temporada. (Clique na imagem para visualizar)

A produção de uma série de televisão, como sabemos, acontece durante um determinado tempo. Essencialmente elas possuem um horário próprio na grade de exibição de uma emissora, e um período de início que decorre até o período de seu término. Podemos associar isso às séries americanas que também possuem suas temporadas de exibição (como Arrow, The Flash, Friends). Embora, claramente, as séries de TV dos Estados Unidos possam ter várias temporadas, cada uma delas respeita um período de exibição que decorre do início ao fim.

O mesmo acontece com as animações japonesas. Elas têm um período definido para passar na televisão e, geralmente, com um fim já predeterminado. Existem quatro temporadas de animês por ano, cada uma equivale a estação do ano lá: Inverno (de janeiro a abril), Primavera (de abril a julho), Verão (de julho a outubro) e Outono (de outubro a janeiro). Como fator de curiosidade, costuma-se dizer que Primavera e Outono são as melhores temporadas, por possuírem os animês mais esperados.

Como todos vocês também já sabem, a grande maioria dos animês possui em torno de 13 ou 26 episódios. Os que possuem até treze episódios são concluídos dentro de sua “temporada” normalmente, já os de 26 são exibidos durante duas “temporadas”. Logicamente existem exceções como Naruto, One Piece ou Dragon Ball que tem episódios e mais episódios continuamente.

Atualmente, os animês que são exibidos nas temporadas do Japão são peças importantes para o mercado nacional de mangá, pois uma animação cria visibilidade para uma série, ela se populariza e, com isso, as editoras nacionais podem pensar em investir numa determinada obra. Afinal com uma base de fãs já criada eles podem garantir com mais facilidade a venda de seus títulos.

Vale lembrar que as editoras costumam dizer que boa parte dos títulos que chegam ao nosso país é pela vontade do público e, muitas vezes (talvez a maioria delas), essa vontade é adquirida após as pessoas verem a versão animada. Quem conhecia Ore Monogatari, Another ou Diário do futuro antes do animê? Pouquíssimos… A animação decerto teve alguma influência na vinda desses e de vários outros… Um caso notório é de Noragami. O título havia sido ofertado à Panini uns anos atrás, mas a editora recusou, pois não havia animê e ninguém pedia pelo título. Somente depois de sua versão animada e da chuva de pedidos é que o mangá acabou licenciado.

Alguns mangás, entretanto, já se tinha uma certa popularidade como One-Punch Man e Boku no Hero Academia e é lógico que as editoras apostam firme que a exibição dos animês dessas obras farão a popularidade disparar. Não à toa, os referidos títulos chegaram tão pouco tempo depois da exibição da versão animada…

Influência dos animês no mercado brasileiro de mangás: dados recentes

Tendo em mente essa premissa cabe perguntar: será mesmo que as temporadas de animês são tão influentes assim em nosso mercado? Na verdade, sim, é o que percebemos ao olhar alguns dados recentes, mostrando quantos animês de tal ou qual temporada já tiveram sua versão em mangá publicadas (ou anunciadas) por aqui.

As tabelas abaixo mostram quais obras foram exibidas no Japão de 2012 para cá e que tiveram o mangá ou a light novel (ou os dois) publicados/anunciados no Brasil posteriormente. Percebam a quantidade enorme de títulos:


2012

Janeiro: Another, High School DxD e Black Rock Shooter 
Abril: Kuroko no Basket, Sankarea,  Zetman e 2ª temp. de Fate/Zero.
Julho: Sword Art Online
Outubro: K, Girls und Panzer, Magi, Btooom!, Zetsuen no Tempest e 2ª temp. de To Love-ru.

Percebe-se que em 2012 tivemos os animês de não menos que 12 mangás e 2 light novels (K e Fate/Zero) publicados posteriormente por aqui. Embora pareça pouco, afinal a quantidade de animês exibidos durante um ano chega perto ou ultrapassava  os  150, esse é um número relevante, que mostra a grande influência dos animês na escolha das editoras nacionais. Mas isso ficará mais claro no final.


2013

Janeiro: Nada exibido, mas foi ao ar o filme  Blood-C: The Last Dark, da série de mangás publicada pela Panini
Abril: Shingeki no Kyojin e Kotonoha no Niwa (filme de animação).
Julho: Corpse Party (especial em 4 episódios)
Outubro: Kill la Kill, Log Horizon e Pokémon Origins

Das animações japonesas exibidas em 2013, foram anunciados até agora apenas 7 mangás e 1 light novel. Muito pouco se comparado com o ano anterior, mas isso pode mudar até 2017, 2018, 2019, etc…


2014

Janeiro: Noragami e Nisekoi
Abril: No Game No Life, Soul Eater Not!, Knights of Sidonia e One Week Friends
Julho: Tokyo Ghoul, Akame ga Kill e Aoharaido
Outubro: Terra Formars, The Seven Deadly Sins, Parasyte e Fate/Stay Night: Unlimited Bladeworks.

Dos animês exibidos em 2014, tivemos não menos que 13 mangás vindo ao Brasil.


2015

Janeiro: The Testament of Sister New Devil
Abril: Blood Blockade Battlefront, Ore Monogatari!! e Ninja Slayer
Julho: Gangsta
Outubro: One-Punch man

Dentre os animês de 2015 tivemos somente 6 mangás entre lançados e anunciados até o momento.


2016


O ano de 2016 mal começou e já tivemos anúncios. Tratam-se de Ajin que será lançado pela Panini e Boku no Hero Academia, pela JBC. Com certeza teremos mais…

***

Mas está faltando Assassination Classroom nesta lista aí, observa um leitor. De fato, o mangá não foi mencionado, no entanto, há um motivo para isso. Mangás lançados no Brasil antes de suas versões animadas não foram mencionados na lista,  uma vez que podem não seguir a ideia proposta neste texto (influência da indústria de animação japonesa).

Então isso quer dizer que os animês exibidos após a publicação nacional não possuíram serventia? Não necessariamente. Já foi confirmado que as editoras brasileiras possuem, em alguns casos, privilégio de informações acerca de uma vindoura animação. Apesar de ainda não divulgado, um animê de determinada obra pode estar sendo planejado, e essa informação, cedida à editora brasileira pela japonesa, pode simplesmente fazê-la se interessar um pouco mais pela obra, ratificando o contrato e trazendo o título já sabendo que ele ganhará um animê brevemente (tal questão já foi confirmada por Cassius Medauar, da editora JBC e por Junior Fonseca, da editora NewPOP). Um caso interessante é justamente o da editora NewPOP, em que Junior Fonseca falou a respeito da light novel Morte, que em suas palavras, foi ofertada a ele já com a informação a respeito da produção de um animê da obra. Um caso ainda mais recente que pode ter sido fruto de informações antecipadas é o de UQ! Holder, cujo mangá está em seu segundo volume por aqui, mas sua animação foi recém anunciada.

Contudo, apesar da confirmação das editoras acerca dessas informações, não existe uma maneira concreta de determinarmos os casos de mangás que foram licenciados já com a informação de um animê em planejamento. Talvez até alguns dos citados na tabela acima tenham sido licenciados já se sabendo de algumas informações, mas não temos como confirmar. A Panini, por exemplo, disse que Shingeki no Kyojin foi negociado antes mesmo do animê existir, mas será que a editora já sabia que viria o animê? Isso ela nunca disse. Em vista disso, decidimos desconsiderar os animês que começaram a ser exibidos depois dos mangás estarem em publicação por aqui. Se estiver curioso sobre quais outras obras chegaram ao país antes de ganharem animê, consulte o nosso Guia.

Contudo é necessário enfatizar que esse fato é bastante importante, pois se a editora pode ter conhecimento de uma possível temporada de animê e usa isso como base para licenciar ou não uma série, trata-se de uma prova inegável da grande influência da indústria de animação japonesa em nosso mercado de mangás.

*** 

Mas há pelo menos um leitor que ainda não está convencido. Esse leitor acha que a influência do mercado de animês não é uma verdade, pois chegam em nosso país muitos mangás “desconhecidos” e eles seriam a prova de que as editoras brasileiras não ligam para os animês.

Foi para sanar essa desconfiança que elaboramos um gráfico. Pegamos todos os mangás lançados (ou anunciados) no Brasil de 2012 a 2016 pelas três principais editoras (JBC, NewPOP e Panini) e verificamos a porcentagem de obras que tiveram animês exibidos. Vejamos a seguir:

GRÁFICO4

Repare no gráfico que mesmo em certa “desvantagem” a quantidade de títulos que foram publicados após a exibição de um animê (veiculado no Japão a partir de 2012) rivaliza com as demais opções, mostrando que os animês recentes possuem muita força na lista de obras publicadas no Brasil. No caso da Panini, por exemplo, pouco menos que 40% dos títulos foram publicados depois da exibição do animê, no período pesquisado.

Considerando todo o gráfico, cerca de 70% dos títulos publicados (anunciados) pela Panini nos últimos quatro anos possuía uma versão animada prévia, seja recente, seja mais antiga. Levando as estatísticas em consideração, pudemos perceber que a editora tem uma tendência maior do que as demais de trazer obras adaptadas para o mundo da animação.

Já a editora JBC se diferencia um pouco, pois possui mais títulos com animês mais antigos (Sailor Moon, por exemplo), porém poucos exibidos recentemente, menos de 20%. No todo, os mangás da editora que possuíam animê superou os 50%, mostrando que a editora também está apegada à indústria de animação japonesa. Vale dizer que os títulos sem animê da editora são em sua maioria mangás com poucos volumes, ou de volume único (como Só você pode me ouvir, O Cão de Caça e outras histórias e Vitamin).

A editora NewPOP, sempre apostando em obras um pouco mais desconhecidas, conseguiu a maior porcentagem de publicações sem animê: aproximadamente 60%. Não deve ser novidade para ninguém, uma vez que a própria editora se orgulha de trazer obras que não viriam se não em suas mãos.

Ao todo foram 43 títulos publicados depois de sua versão animada desde 2012, o que por si só já é um indício do quanto a animação é levada em consideração. Já no período geral, considerando as principais editoras brasileiras (Panini, JBC e NewPOP), um estudo que fizemos exaustivamente indicou que aproximadamente 60% das séries trazidas ao Brasil tiveram ao menos uma adaptação em animê.

No entanto, é importante notar que não são quaisquer histórias com animações que ganham publicações por aqui, somente aquelas cujo o público melhor avalia (afinal, como já dissemos mais acima, as editora vivem dizendo que o critério para se trazer uma série é justamente os pedidos do público) e algumas que não sabemos porque vieram, provavelmente alguma aposta das editoras nacionais, indicada pela editora original. Vemos, por exemplo, Shingeki no Kyojin e Gangsta sendo publicados no mesmo ano de sua exibição. Ambos parecem ter sido apostas, o primeiro teve um animê de muito sucesso, o segundo nem tanto assim. Uma aposta certeira e uma aposta errada, respectivamente? Não dá para saber… O que dá para saber é que o recente Ninja Slayer foi uma aposta da editora. Apesar da exibição de seu animê, o título não se tornou famoso o suficiente, mas mesmo assim a editora apostou no título, conforme a própria editora disse.

Nesse sentido, outro ponto a se notar nessa questão é que não necessariamente o animê de uma obra (e a consequente popularidade advinda disso) fará a editora investir nela (por uma série de fatores). Títulos com muitos volumes como Gintama ou Jojo são difíceis, entre outros…

Por fim, como podem ver, por mais que algumas editoras estejam investindo em mangás razoavelmente desconhecidos, a grande maioria ainda são títulos que possuem um histórico de popularidade entre o público, geralmente advindo de um animê. Afinal o objetivo da animação vai além das vendas de Blu-ray e DVD, a editora japonesa que autoriza a adaptação de determinada obra, espera que com o animê ela ganhe visibilidade e portanto aumente as vendas do original (mangá ou light novel). As duas se beneficiam mutuamente, e como puderam notar na matéria, essa questão de visibilidade não beneficia apenas a editora japonesa, como também a detentora dos direitos da obra aqui no Brasil.

***

BBM

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9 thoughts on “ANM: A indústria de animação japonesa e a sua influência no mercado brasileiro de mangás”

  1. Ótimo texto; concordo totalmente.

    Realmente o mercado de mangás brasileiro é extremamente ligado aos lançamentos de animes no Japão. Com os fansubs da internet, um anime chega aqui no mesmo dia que é exibido no Japão, o que faz com que criei um grande base de fãs não só no Japão, mas no mundo inteiro. Como já disse aos meus amigos, se não fosse a pirataria de animes (e, em certo ponto, de mangás também) muitas obras não viriam para o Brasil, pois não teríamos os animes para conhece-las e depois pedi-las para as editoras.

    No caso de Assassination Classroom, temos que considerar que ele foi um dos pilares da Jump quando era publicado, nunca ficando fora do top5. Isso também é algo que influencia a vinda de um mangá pra cá (se bem que não é todo medalhão da Jump que dá certo no Brasil).

    Ah,e discordo quanto as temporadas mais esperadas. Geralmente a minha preferida do ano é a de Verão, a qual sempre acho que tem os melhores animes.

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    1. Não, para falar a verdade é a primeira vez que ouço esse nome… Pelo que eu procurei aqui ela só publicou na internet, não é? Ou teve edição física? Em todo caso, me indicaria o livro?

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      1. Então, que a Sandra é jornalista e tal e gosta de anime. No blog dela tem bastante coisa sobre.
        Uma época atrás ela fez uma pesquisa e fez um livro comentando isso da presença dos animes na TV brasileira. Mas o livro é de antes das editoras começarem a trazer mais mangás pro Brasil e o sumiço dos animes posteriormente.
        Veja aqui: http://www.papodebudega.com/2013/12/a-presenca-do-anime-na-tv-brasileira-ja.html
        Eu não li o livro, mas quero ler.

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    1. Nesse caso o mangá ainda tinha uma boa visibilidade e vendia bem antes mesmo do anuncio de animê… De qualquer forma, é possível sim, o próprio anuncio deu um boost grande nas vendas japonesas.

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