Especial

É tudo uma questão de ponto de vista

ponto de vista

Copo meio cheio ou meio vazio?Nós, como ex-colônia europeia, herdamos todas as nossas manias, lógicas e costumes dos ocidentais. Costumes esses que dividimos com toda a América, do Canadá e Estados Unidos à Cuba e Argentina. Vivemos às vezes a vida toda assumindo como certa coisa é totalmente óbvia e comum, ignorantes que o resto do mundo possa ser totalmente contrário.

Vivemos em uma realidade que raramente nos dá a chance de experimentar ou ter contato direto com outras culturas, como a japonesa. E esse é um dos maiores benefícios do mangá, sem dúvida. Não é algo instantâneo, aos poucos os mangás nos apresentam um mundo diferente.

Pelos mangás é que temos contato com escrita, ordem de leitura, comida, rituais e muitas outras características que vamos absorvendo e assimilando sem perceber. Coisas que acabam não podendo ser adaptadas ou cortadas como nos animes, que acabam sendo muito ocidentalizados.

Mas mesmo você, leitor assíduo de mangá, pode não ter ideia do quão diferente e “do contra” o Japão pode ser. Juntamos aqui uma porção de tópicos, alguns mais sérios, outros mais curiosos, da cultura japonesa para expandir ainda mais os seus horizontes.

I. Ruas x Quadras

Se você forçar a memória um pouquinho e lembrar as cenas em que os personagens buscam certo endereço, você vai começar a notar que eles não procuram por ruas ou nunca seguiram uma rua para achar certa numeração. Algo tão, mas tão comum no nosso dia a dia não acontece no Japão?!

O que muitos nunca percebem é que no Japão existem ruas, mas elas não têm nomes como as nossas (salvo as enormes avenidas, estradas, etc). Lá, quem tem nome são as quadras e semáforos! E a numeração das casas depende da ordem de construção! (Embora às vezes as casas sejam numeradas no sentido horário ao redor do bloco.)

mapaOlhando o mapa, note que rua nenhuma tem nome, os sinais (simbolizados pelo mini semáforo) e quadras (os quadrados marrons), por outro lado, estão recheados de letrinhas. A única com nome é a grande avenida 422. Imagine seu desespero tentando se localizar no Japão?

O que à primeira vista parece uma total falta de senso, na verdade é algo que fazemos também. Shoppings têm alamedas, não? Ou será que os corredores dos shoppings ganham nomes? Bairros não são enormes áreas também cercadas de ruas e vias?

Os malucos, na verdade, somos nós, que nomeamos áreas ― continentes, países, regiões, estados, municípios, cidades, bairros ― e quando chegamos no que seria “quadras” mudamos para nomear “vias”, só para voltarmos a nomear áreas ― blocos, condomínios, casas, apartamentos, andares, etc. Esses ocidentais são mesmo uns loucos!

II. Agregação

Desde pequenos aprendemos a agrupar as coisas, seja nas salas de aula ou em casa. Em biologia nos ensinaram a agrupar seguindo vários conceitos científicos, assim colocamos no mesmo grupo camarões, aranhas e insetos ou lesmas e polvos; mesmo que estranhemos e resistimos a aceitar que sejam “parecidos”.

Mas, se analisarmos com calma, todas essas coisas de classificação como conhecemos hoje em dia veio direto de manias e pontos de vistas gregos. Não é de surpreender então que culturas orientais com forte influência chinesa decidiram agrupar coisas de maneira diferente!

Na lógica chinesa as coisas são agrupadas pelas suas características físicas, e existem vários “contadores” ― que são palavras que acompanham números para quantificar substantivos ― para cada tipo de coisa, veja algumas agregações “esquisitas”:

  1. Mai (枚): Para coisas finas e achatadas, como papel, fotografia, pratos, tecido.
  2. Hon (本): Para coisas finas e longas, como rios, ruas, lápis, garrafas, violões.
  3. Hiki (匹): Para pequenos animais, como insetos, peixes, répteis, sapos, vermes.

Mas não são apenas contadores, muitas palavras em japonês dão um nó em qualquer tradutor, uma das mais irritantes é sem dúvida o “Mushi” (虫). Mushi é absolutamente intraduzível, é o nome que se dá genericamente a coisas que rastejam, às formas de vida “inferiores”; os mais comuns sendo insetos, vermes, larvas e outros. Não é incomum vermos traduções como insetos, só para aparecer mais na frente como um verme ou centopeia.

Esses são alguns exemplos simples de algo que acontece o tempo todo e um dos grandes desafios de qualquer tradutor de japonês.

No nosso mundo, rios estão agrupados com outros corpos d’água como lagoas, mares e oceanos; ou seja, agrupamos baseado numa característica química e biológica e não na aparência física e exterior da coisa. Conceber um agrupamento de rios, ruas e lápis soa completamente insano, não é?

III. Honra

Nós que crescemos assistindo Kenshin e sua honra não precisamos de muita explicação. Mas o que muitos falham em perceber é que isso não é coisa de samurai do passado. Honra é uma questão séria no Japão, junto com ideias de lealdade e dignidade.

Não é incomum que japoneses façam coisas guiadas por essas ideologias, deixando qualquer ocidental horrorizado. Desde os famosos suicídios “Harakiri” até cenas de auto-humilhação pública.

Lá, trabalhar numa empresa é como ser parte de um time de futebol, é esperado que você lute pela empresa. Se a empresa vai mal, é esperado que você faça horas extras e não cobre, que dê sempre 120% da sua capacidade pelo bem da empresa. E ai de você que se “atreve” a sair no horário!

Pode parecer completo exagero, mas isso acontece, sim, em algumas empresas japonesas e são uma das principais reclamações de quem vai trabalhar por lá do exterior.

Em qualquer mangá com um salariman você vê a obsessão do cara pelo trabalho e a preocupação em faltar com seus deveres e dar “trabalho” aos outros. Em “Usagi Drop”, por exemplo, Daikichi passa grande parte da trama preocupado em não faltar, se atrasar ou causar problemas no trabalho.

Essa postura é clara nos próprios autores de mangás. Todos os posfácios falam a mesma coisa, como eles se desculpam pelos erros e se comprometem a melhorar. Enquanto isso, no Brasil, muitos trabalhadores e estudantes passam os últimos minutos encarando o relógio prontos para sair em disparada.

Isso fica claro também na seriedade que eles têm com os “deveres cívicos”, desde os alunos limpando as classes após as aulas, até a severas regras de lixo e reciclagem e postura para com os idosos.

IV. Sentido de leitura

O que mais aparece são “Eles leem/escrevem ao contrário” e “Leem/escrevem da direita para a esquerda”. Mas tudo isso está errado, ou melhor, impreciso.

Vamos deixar uma coisa bem clara, os japoneses tradicionalmente escrevem verticalmente de cima para baixo, da direita para a esquerda. Ou, principalmente na internet, horizontalmente da esquerda para a direita, de cima para baixo.

Na verdade, se pegarmos um texto “ocidental” e virarmos 90º para a direita você chega ao sentido japonês. Ou seja, é exatamente a nossa lógica, mas de forma vertical e não horizontal. Visto dessa forma, não parece tão estranho, né?

sentido

O porquê de eles escreverem assim é tão difícil de saber quanto o porquê de escrevermos do jeito que escrevemos. Existem, entretanto, algumas teorias, dentre elas, a mais simplista e charmosa é a da “tinta”.

Enquanto os ocidentais escreviam com aquelas “canetas” estilo bico de pena, os orientais eram adeptos ao pincel (Fude), similar ao que hoje é utilizado no “Shodou” (ou Shodô).

maxresdefaultNote na imagem acima a tinta à direita do idoso, perto da mão que irá escrever, esse, segundo a teoria, é o fator principal que moldou o sentido.

Ao molhar o pincel, se esse idoso tivesse que começar da esquerda, ele correria um risco maior de “pingos”, já que teria que passar o papel todo até o canto esquerdo. Da mesma forma, se o papel estivesse na horizontal, ele teria que colocar a tinta ou sobre o papel ou na parte superior e ficar movendo a mesma horizontalmente enquanto escrevia no papel. E mudar a tinta para a esquerda aumentava o esforço e movimentação do braço.

Resultado, colocando a tinta na direita centralizada, o idoso não precisa mover a tinta para escrever em todo o papel (ou não move sobre o papel) e tem que mover menos o pincel molhado até chegar ao ponto de início da pincelada, diminuindo as chances de borrões.

V. Polidez x Palavrões

Uma das coisas que todo mundo quer saber é “como se xinga em japonês”. Mas em japonês não existem exatamente palavrões. O que existem são variações de formas de falar, desde da forma mais polida, até a forma mais simples e, às vezes, rude.

Assim, se um japonês quer “xingar” outro, basta falar da forma mais rude possível. A falta de respeito na linguagem usada é que passa o que para nós seriam os palavrões e xingamentos.

Por exemplo, se queremos dizer algo como “Pare de fazer barulho” de forma rude, adicionamos vários palavrões. No caso japonês, não há a necessidade deles, já que é possível se falar apenas aquela frase já de forma grosseira e desrespeitosa.

É claro que existem, entretanto, termos pejorativos ou palavras que acabam tendo um sentido pejorativo com o tempo. Como o “otaku”, que na verdade significa “casa”, mas com o tempo passou a significar outras coisas.

Por isso mesmo é muito raro vermos palavrões e xingamentos nas traduções, até mesmo o “baka” (idiota) parece super infantil e leve para nós. Mas do ponto de vista japonês, a desonra e desrespeito são fatores muito mais importantes que o significado chulo do vocabulário.

VI. Alfabeto x Silabário x Ideograma

Não é segredo como no Japão se escreve usando ideogramas. O que muitos às vezes não sabem é que além do ideograma eles usam 2 silabários com os mesmos fonemas (numa comparação crua, imagine como nossas versões em maiúsculo e minúsculo), esses servem como terminações verbais, partículas e também palavras. (Diga-se de passagem, silabários não têm letras, têm silabogramas!)

Mas, com certeza, a magia oriental está nos ideogramas, chamados no Japão de “Kanji”. Kanjis funcionam como os radicais ocidentais, mas vão muito além disso. Um Kanji tem sempre uma forma fixa, mas a leitura varia de acordo com as combinações e palavras.

A grande sacada dos ideogramas é o fato dos caracteres estarem ligados a sentidos. Enquanto no ocidente os caracteres estão ligados a fonemas específicos.

Mas qual o benefício disso? Muitos, na verdade, na literatura especialmente. Para nós fazermos uma metáfora, ainda mais num nome, é um processo complicado. “Branca de Neve”, por exemplo, é algo estranho para nós, uma tentativa de se comprimir “Branca como a neve”. Acaba não soando como um nome, correto? Em japonês, fazer isso é absolutamente simples: juntemos “shiro” (branco), “yuki” (neve) e “hime” (princesa) e se torna a palavra Shirayuki-hime. Não é uma frase, é uma palavra com sentido claríssimo.

Peguemos uma palavra portuguesa agora, Maranhão. O que significa Maranhão, alguém sabe? Terá a ver com “Mar”? É um “Maranho” grande? E Rondônia? Tem a ver com Ronda?

Nós sabemos o que as palavras significam por pura memória, sabemos que Marinho vem de Mar porque nos foi ensinado isso, da mesma forma sabemos que Amar não é a “ausência de mar” (a+mar) e nada tem a ver com esse radical. Por causa disso, às vezes não temos a menor ideia de quais são os radicais de certas palavras ou de onde aquilo vem.

Enquanto no Japão um japonês pode vir a ter dificuldade em saber como se pronuncia certo caractere, nós temos dificuldade em saber o que significa palavras que sabemos exatamente como pronunciar. Você sabe o que é Admoesta? Fleumático? Nódoa? Petiz? Tergiversar? Dá para chutar só com as letras?

Essa priorização do “sentido” ao invés da “pronúncia” torna metáforas e a expressão textual muito mais ricas. Basta trocar ou escrever um Kanji um pouco diferente para mudar e muito o sentido, às vezes sem alterar em nada a leitura, passando ideias e sentidos detalhadíssimos. Criar uma palavra vira brincadeira de criança.

Se por um lado japoneses têm que gravar a forma e escrita de milhares de Kanjis, nós, ocidentais, temos que gravar milhares de definições de palavras e radicais. O que será mais difícil? Gravar as várias pronúncias de um caractere ou os vários significados de combinação de caracteres?

***

E você, leitor, conhece mais alguma outra coisa “do contra” japonesa graças aos mangás?

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6 thoughts on “É tudo uma questão de ponto de vista”

  1. Muito boa a matéria.
    O das ruas não possuírem nome eu já havia visto, e ainda não consigo acreditar.
    Eles sabem que é difícil o modelo atual para se encontrar mas não pretendem mudar isto.

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  2. Nossa, realmente, a gente é tão acostumado a viver no ocidente que tem algumas coisas que simplesmente travam a cabeça!
    Sobre as ruas e quadras, eu vi ontem um anime em que a personagem falava, mas não tinha reparado no nome. Ela chamou quadra cinco e depois falou no nome da rua principal. Algumas vezes eu achava que por conta da tradução dos animes, o texto e o roteiro era mais simplificado: “Eu moro em cima da colina. Eu moro logo ali. Moro perto daquele parque.” Mas fiquei contente em saber uma coisa legal como essa, e esta coisa de Honra!

    Lembrei direto de uma frase que citam muito nos animes: “Se você suspirar, sai um pouco de felicidade de você.” Acredite, suspirei menos depois de grandes invocações dessa frase!

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  3. I. quando uma cidade é planejada trabalhar com quadras funcionam bem, mas aqui é muit comum ocupações irregulares, então a idéia de rua funciona muito melhor.
    Trabalho numa empresa de vilas e favelas, e é impressionante trabalho com o Google Maps e outros propgramas e ver/descobrir a formação de novos becos. Isto em BH.

    II. não sei o que dizer.

    III. o problema é que honra tem ser recíproca, de um povo com nação, da nação para com o povo.
    É muito comum em filmes americanos do Capitão que afunda com o navio, em quadrinhos podemos notar a Compania Moleza de Joe Kubert, e assim vai.
    O mundo empresarial é tacanho desde a idade média e aqui no Brasil encontrou terreno para pirar de vez.
    É difícil ter honra para com o patrão quando se vive num clima de desconfiança com o mesmo, pois se tem a mítica que o chefe vai te ferrar (isto quando ele não o faz)
    E se tem a mítica do trabaalhdor vagabundo, vide taylorismo e assuntos correlatos, e quem sofre é quem quer mostrar serviço.
    Nisto se cria um cultura operário X empreegador, e claro todos saem perdendo.

    IV. sim, e por causa da tinta a califrafia japonesa é tão regular, uma amiga que começou a estudar a escrita japonesa me mostrou dois fonemas que é quase igual, só muda o sentido de escrita, e isto quando se usa tinta muda tudo. Aqui, eu mesma escrevo o “d” minúsculo de quatro formas diferentes, quase iguais e legíveis como um”d”.

    V.

    VI. nada a comentar.

    Excelente texto.

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